A elite que ama a mentira

É unânime: o “recuo” de Jair Bolsonaro é insincero e tático, pois a ele se sucederá outro avanço, e não demora.

É chocante: a transição de “sai daí, canalha” para “professor e jurista” que o presidente fez nos seus conceitos sobre Alexandre de Moraes só é possível para alguém que não tem o menor traço de caráter e coerência.

É aterrador: tudo isso se dá sem que haja, salvo exceções – reação à altura de instituições e personagens da vida política e econômica do país.

Por vezes, o país parece estar nas mãos de adolescentes malcomportados, que brigam e “fazem as pazes” com a facilidade de quem troca de roupa.

Houve um ensaio de golpe e fica tudo bem: saem os manifestos em defesa das instituições da democracia, entram as louvações ao diálogo que, neste caso, só podem ser acertos de interesses de mando, não os do país.

Como se pode defender os organismos políticos se, em meio ao confronto entre poderes se, esquecidos de tudo, largam a crise e vão votar a toque de caixa mudanças na lei eleitoral?

Como se pode falar em altivez e independência de quem é chamado de canalha num dia e no outro já está recebendo conversinhas sem “o calor do momento”?

Na vida pessoal e na vida pública, recomposições acordos só podem (e devem) existir com dois fundamentos: o tempo e os fatos.

Não houve nem um nem outro, mas um conchavo, costurado pelo “patrono” de Moraes, Michel Temer, alguém repelido pela opinião pública justamente por, em madrugadas e subsolos, fazer acordos para “manter isso”.

Aliás, que vergonha ambos admitirem que a “carta” do atual presidente é, na verdade, do ex-presidente, que deixou o Planalto sob a rejeição quase total do povo brasileiro.

Foi, de fato, uma “usurpação consentida” do poder que, certamente, não terminará no texto.

A satisfação das elites não é, certamente, o sentimento da população, que não vê ações e só declarações hipócritas para dizer que este país precisa funcionar.

Fica-lhe, com razão, a ideia de que só importa às nossas camadas dirigentes – na política e economia – a continuidade do funcionamento das máquinas de ganhar dinheiro, favores e privilégios.

Compreende-se: é a razão da vida desta gente, mas não é o suficiente para que, por isso, o país continue descendo ladeira abaixo, desgovernado, como um trem doido.

Pior: de deformar este país à esta face monstruosa, onde facínoras recalcados, intolerantes, no grito e na chantagem, dobram facilmente as instituições nacionais com seu espinhaço de borracha, com um simples “foi no calor do momento”.

 

Fernando Brito:
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