A incapacidade de raciocinar a profundidades maiores que cinco centímetros parece ter se tornado uma praga no jornalismo nacional.
No final de semana, multiplicaram-se as matérias sobre as razões de as empresas americanas e inglesas terem fugido do leilão de Libra: modelo de partilha é desconhecido, há muita interferência estatal, a presença da Petrobras como operadora incomoda e por aí vai.
Ah, e ainda tem a brilhante conclusão do Estadão que, através de uma pesquisa nos sites das petroleiras chegou à conclusão de que elas não se interessam pelo pré-sal brasileiro – imagina se iam publicar ali os lugares onde tem olho grande. Publicam onde estão, porque todo mundo sabe que estão, mas não onde querem estar, óbvio.
E como pode ser desconhecido o modelo de partilha se ele é praticado por mais da metade dos maiores produtores mundiais de petróleo?
Muito menos é problema a operação do campo pela Petrobras, porque todas elas já compraram interesses em campos operados pela brasileira.
O chororô que “vazam” para os jornalistas é o gemido triste da raposa dizendo que “bem, aquelas uvas nâo prestavam mesmo, estavam verdes”.
Nem uma palavra para falar das verdadeiras razões. Que são duas, e se interligam.
A primeira e óbvia foi a situação canhestra em que ficou o governo americano – do qual as empresas americanas e inglesas, todos sabem são irmãs siamesas – com a revelação da espionagem sobre a Petrobras. Qualquer investida mais ousada para deter o controle do campo seria vista como resultado de informação privilegiada. E, cá pra nós, seria mesmo.
Segundo, impossibilitadas politicamente de forçar a Petrobras a um acordo, sabem que teriam de subir seus lances, porque a brasileira está articulando uma composição com os chineses.
No leilão de Libra o esquema de participação fica como exposto no quadro ao lado, com pequenas variações em função do volume produzido e do preço internacional do petróleo.
Lembre que como estamos falando em um volume recuperável de óleo em torno de 10 bilhões de barris, a 100 dólares cada um, cada um por cento equivale da 10 bilhões de dólares, ao longo de 35 anos.
E estas percentagens estão longe de serem as mais altas exigidas no mundo: em alguns países, como a Indonésia, elas chegam a passar de 90%, pela exigência de venda a preços mais baixos para o mercado interno.
Nem por isso as grandes fogem de lá.
Nossa imprensa, porém, não mostra isso a seus leitores.
Está mais preocupada com as pobrezinhas das multinacionais do petróleo, tão generosamente dispostas a nos ajudar a tirar o óleo de lá das profundezas; estão perdendo com estas “regras absurdas” que fazem a receita ficar com o país.
Alguns agem por servilismo.
Mas a maioria é por incapacidade de pensar, que os faz repetir como papagaios os que as vedetes da imprensa dizem.
Por sorte, há exceções e vale a pena registrar uma, de Jânio de Freitas, na Folha de ontem:
“Vista pela ótica da história das relações internacionais, as americanas Exxon (ainda Esso, para nós) e Chevron e as britânicas BP e BG fizeram uma gentileza ao Brasil, com sua desistência de participar dos leilões do pré-sal. Preferem investir para a desnacionalização do petróleo mexicano.
As três primeiras são o que se pode definir como empresas geradoras de problemas, onde quer que estejam. A Exxon ou Esso ou Standard Oil tem um histórico de presença no centro de conflitos armados, inclusive entre países, sem equivalente. E seus interesses sempre se tornaram interesses do governo americano, para todo e qualquer efeito.
Passem bem todas quatro, o que não acontecerá ao México.”
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O Governo Brasileiro poderia suspender o leilao de Libra, e ajudar o consorcio Brasil-China a entrar pesado no Mexico. So de sacanagem.
Com consultoria do Snowden. Esqueci de dizer.
Prezado Fernando Brito,
Parabens pelo site, pelo trabalho, dedicação e defesa dos interesses nacionais.
Em relação ao leilão de Libra: existem estudos indicando a partir de qual valor do barril o investimento seria antieconômico para as empresas privadas?
qualquer valor acima de 40 dólares já é compensatório, porque há correções nas parcelas diferenciadas pelo preço do barril no mercado spot
Ja faz muito tempo, que a midia ganha a vida com babaquice, babacao de ovo e conversa fiada. Vade retrum. Meu ouvido nao e penico.
Estão esperando mudar os ventos por aqui....
ver se os coxinhas e os milicos dão um golpe...
vão esperar sentados
O petróleo é nosso! Leilão é privatização! Governo que torrar o petróleo achado pela Petrobras para fechar a conta do "superavit primário".
http://www.brasil247.com/pt/247/parana247/115807/Requi%C3%A3o-venda-de-Libra-%C3%A9-pior-que-espionagem.htm
REQUIÃO: VENDA DE LIBRA É PIOR QUE ESPIONAGEM
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Dossiê apresentado pelo senador do PMDB-PR à Presidência, ao Ministério Público e ao TCU diz que desistência da BP e da Exxon no leilão é apenas fachada já que ainda participam através de subsidiárias e que foi uma estratégia para forçar o governo do Brasil a facilitar ainda mais os editais; parlamentar denuncia ainda que software da empresa de Dick Cheney, ex-vice presidente dos EUA nos governos Bush, para gestão de dados dos campos de petróleo do Brasil permite vantagem aos americanos; peemedebista tenta viabilizar candidatura ao governo do Paraná com um discurso nacionalista
Tenho lido, nos últimos meses, ou assistido vídeos, participado de palestras etc sobre os debates a respeito dos leilões do petróleo.
O que concluo é que o melhor seria suspender esses leilões para que houvesse um esclarecimento maior para a população a respeito das diversas opiniões dos especialistas no setor. E, posteriormente, um plebiscito. Afinal, o petróleo é do Povo Brasileiro. Considero muito pouco ético que se tomem decisões a respeito sem que sejam ouvidos todos os setores e grupos sociais.
Agir de afogadilho, basear-se em opiniões e achismos, sem um amplo estudo, sem que sejam cuidadosamente ouvidas todas as pessoas com notório conhecimento técnico, científico, econômico e financeiro, etc sobre esse campo de atividade humana, é extremamente temerário. É impossível simplesmente, acreditar, só como alguns exemplos, que engenheiros com extraordinária competência na área como Ildo Sauer, Siqueira e Paulo Metri, que possuem ilibadas reputações e excelentes posições políticas, os quais estão totalmente contrários aos leilões, estejam equivocados.