Mas quando não foi assim, Folha?

A coluna da ombudsman da Folha hoje é, desde o título, um exemplo de como as verdades podem ser ditas por inteiro.

Bolsonaro mentiu e a Folha amarelou, a sentença que encabeça o texto de Flávia Lima é dura, mas não um exagero, por conta das duas verdades ditas ali.

Já se tinha observado aqui, dias atrás, que os jornais praticaram farto malabarismo verbal para fugir desta cristalina verdade: o presidente mentiu.

Certo que o verbo mentir é destes do qual se tenta escapar nos discursos bem educados pelo clássico “fulano faltou com a verdade” ou as tais “falácias” que, já o ironizou Veríssimo, parece carneirinhos dóceis e inofensivos.

Mas há limites para o relativismo, quando se trata de confrontar-se com um tipo como Bolsonaro, afinal a “escolha nada difícil” da mídia nas eleições de 2018, e o festival de asneiras que ele imantou e ergueu, como uma onda tenebrosa sobre o país.

Exagero?

Diz a própria ombudsman: “Nunca é demais lembrar que Bolsonaro usa a mentira como estratégia, e a imprensa brasileira ainda não sabe bem o que fazer com isso”.

Ah, que bonito: que tal, por exemplo, tratar o boi pelo nome?

Por onde se olhe, desde a terra plana, à ditadura socialista ou bolivariana, passando por kits gay e mamadeiras de piroca, há muito tempo era necessário dizer que o bolsonarismo alicerçou-se num pantana de mentiras, assim mesmo, mentiras deslavadas.

Mas a grande mídia tudo “relativizou” em nome de uma “imparcialidade” que não pratica e normalizou, cinicamente, o que é intolerável: apologias à ditadura, à tortura, à morte, e o acobertamento do que já era uma gangue familiar – a vasta fauna de bolsonaros filhos, mulheres e ex – cujas ligações policiais e milicianas era sobejamente conhecida.

Curioso é que, tão pródiga em exigir autocríticas à esquerda, jamais pensou que deve ao país o mesmo por ter patrocinado a barbárie da extrema-direita.

Sobretudo por ter participado, anos a fio, do processo de “selvagerização” do Brasil, em nome da liberdade do capital.

Bolsonaro mentiu sempre e a Folha – como toda a mídia – não amarelou: acumpliciou-se, aceitando-o como remédio, ainda que amargo a seus modos educados – para que se evitasse um governo de centro-esquerda no país.

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