Os meninos não morreram por falta de alvará, foi o dinheiro

Os meninos do Flamengo não tiveram uma morte horrenda por “falta de alvará”.  Falta de alvará não pega fogo em alguns segundos, falta de alvará não impede que garotos daquela idade, atletas,não tenham chance de fugir de um incêndio que se inicia, falta de alvará não transforma aquelas crianças no que viraram, mercadoria estocada em contêineres para ser vendida, daqui a pouco, a peso de ouro.

Pois foi isso que matou os moleques bons de bola: serem bons de bola e o fato de o Brasil ter voltado a ser um exportador de commodities humanas, cavadas por toda a parte e “peneiradas” por uma associação entre clubes de futebol e “empresários” picaretas, à procura do que possa dar lucro, lucro grande, milionário, com meninos que. com sete, oito anos, são privados da infância porque, além de representarem esta possibilidade, representam também a possibilidade, decerto a única, de tirar a família da pobreza.

Sob os olhos complacentes da mídia, este garimpo se desenvolveu. Distribuíram-se “franquias” de “escolinhas de futebol” pelas periferias e pelo interior, com pouco ou nenhum interesse desportivo ou educacional, mas sempre atentas a um garoto que “pode dar caldo”. De lá, acabam indo para as “peneiras finas”, como a que se incendiou na madrugada de hoje.

Semana passada, por acaso, dirigindo, escutei um programa na CBN onde o ex-jogador Zé Elias e dois psicólogos do esporte falavam da pressão sobre os garotos que vão ser filtrados. E como tudo o que importa é o “corte” que faz, de cem, virarem três ou quatro.  Em nenhum momento se destacou a formação de guris que eram pré ou adolescentes, exceto pelo que tentavam administrar, cheios de medo, das relações com dinheiro e ambições. Escola não era um elemento significativo nas narrativas.

Nada contra o talento, ainda mais para quem, desde criança, embora sem tê-lo nos pés, sempre gostou do futebol bem jogado. Mas tudo em favor das crianças, que não podem ser tratadas assim. Não podem ser apartada das famílias, de seu ambiente cultural, de suas âncoras de formação da personalidade.

Não pode haver o “colégio interno de boleiros”.

A falta de alvará e as 30 autuações do “Ninho do Urubu” só importam por revelarem a cumplicidade com que são tratados os grandes clubes de futebol, porque isso nunca foi notícia, porque a ninguém interessava indispor-se com um grande clube, assim como não havia quem fosse se indispor com a Vale.

O que matou os meninos, está evidente, foi morarem dentro de um contêiner de porta minúscula, forrado de plástico que “lambeu” como o papel fino de um balão japonês.

Não faltavam, na construção do “Ninho do Urubu”, profissionais e técnicos que dissessem o quanto aquilo era inseguro. Mesmo que fosse para tratar crianças como mercadorias preciosas que eram, para os donos da bola.

Se são preciosos, não podiam ser empilhados sem zelo.

Sem o amor e o cuidado que toda criança merece.

Fernando Brito:

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  • Esses jovens que morreram......soma -se aos muitos brasileiros que morreram em brumadinho......questão de estatística $$$$$$$$$$......nada mais vale maior que lucro

  • Fico enojada ao ver grandes craques e clubes e cartolas lamentando agora a "fatalidade "...É como na Vale mesmo, todos se calam frente ao poder do dinheiro e depois resolvem lamentar. Deviam lamentar ter compactuado com o tratamento vergonhoso dado em vida aos que morreram.

  • Eu gosto muito de futebol, como a grande maioria dos brasileiros, mas o fato é que já passou da hora de exigir mais rigor dos clubes de futebol profissional. Geram milhões de reais para alguns atletas e empresários e dão centenas de milhões de reais em prejuízos ao Erário além de utilizar, sem cerimónia , boa parte do aparato de segurança pública do país.

  • Perfeito, Brito. Sem nada a acrescentar ou comentar, apenas parabenizá-lo pelo texto.

  • A ideologia capitalista e neoliberal estão matando (literalmente e em sentido figurado) a humanidade.

  • Acabou o " Campão da Várzea" fala mais alto a Escolinha do Futebol, com o papai no alambrado, vivenciando seu filho no
    " Barcelona".

  • Em que medida esses meninos, hoje tornados cativos por um mercado canalha, indigno, são diferentes dos seres outrora amontoados em entrepostos nas costas da África, à espera dos grandes negociantes de seres humanos, que os embarcariam em naus fétidas, que arrancariam a vida de muitos durante as travessias. Qual a diferença das escolas de gladiadores? O objetivo é, invariavelmente, o mesmo: lucrar com a carne humana, negociada a peso de ouro. Os anunciantes faturaram muito no dia de hoje, enquanto a tv fazia seu espetáculo emotivo e barato, com manifestações ensaiadas, próprias para essas ocasiões. Amanhã a carne terá sido substituída e o mercado de gente seguirá seu passo. Quem responde por esses meninos?

  • É uma questão do ponto de vista, para o povão são jovens, para os empresários, produtos.

  • Tem um tal Karl, que não é o Marx, mas o Polanyi, escreveu um livrinho no final da última Grande Guerra dizendo que a economia de mercado é incompatível com a vida no planeta terra e que a tentativa distópica de fazer do ganho o único móvel da ação humana levaria a destruição da sociedade, da vida humana e da própria natureza. A Grande Transformação de Karl Polanyi e As Origens do Totalitarismo de Hannah Arendt deveriam ser leitura obrigatória e suas lições deveriam servir de alerta e conselho para todos.

    • Policarpo, verdade. Quando o principio capitalista da Rentabilidade entra em cena, a natureza e os seres humanos são simples ferramentas e meios de produção. Descartados hoje, serão substituídos amanhã, para que a engrenagem do sistema continue girando.

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