Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, publica hoje um artigo que vem, com toda a razão, tanto do cérebro quanto do fígado.
De fato, o artigo publicado ontem pelo ex-presidente, é de embrulhar as vísceras.
É um ataque furibundo ao Governo Lula, a quem chama da “mago do ilusionismo”, que vai ficando tanto mais agressivo quanto as possibilidades eleitorais da oposição declinam.
Fernando Henrique, o homem das privatizações “no limite da irresponsabilidade”, beneficiário da compra de votos para mudar a constituição para si mesmo, na reeleição, o homem dos mil escândalos – da “pasta rosa” ao “blackout” – debocha da memória dos brasileiros com o cínico “surfe” que tira nas prisões da ação penal 470, enquanto o “mensalão tucano” dorme placidamente nas gavetas do Supremo.
Paulo o compara bem ao Corvo Lacerda, que usou o que aprendeu na esquerda para tornar-se a voz mais histérica da direita.
Mas é um Lacerda chinfrim, sem votos próprios e sem forças para matar seu Getúlio.
Não chega a ser um corvo, mas certamente mereceria que Paulo Nogueira lhe recitasse os versos de Edgar Allan Poe, no seu “The Raven”, na bela tradução de Fernando Pessoa:
“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”
A quem FHC pensa que engana com sua conversa de virgem em lupanar?
Paulo Nogueira
A quem FHC pensa que engana com sua conversa de virgem num lupanar? Apoiar a brutalidade de Joaquim Barbosa –primeiro verbalmente, agora num artigo — foi uma das coisas mais baixas que FHC fez em sua vida política.
Octogenário, vivido, inteligente, FHC não tem o direito de achar que alguém possa acreditar, como ele disse, que a Constituição foi defendida com as prisões.
Ora, FHC comprou a Constituição em 1997 para poder se reeleger. Como contou à Folha na época um certo “Senhor X” – que até os mortos do cemitério de Brasília sabiam tratar-se do deputado Narciso Mendes, do Acre – sacolas com 200 mil reais (530 mil, em dinheiro de hoje) foram distribuídas a parlamentares para que a Constituição fosse alterada.
Os detalhes oscilam entre a comédia e a tragédia, como contou Mendes. Os parlamentarem tinham recebido um cheque, como garantia. Comprovado o voto, os cheques foram rasgados e trocados por sacolas cheias de dinheiro, como numa cena de Breaking Bad, a grande série em que um professor de química com os dias contados vira um traficante de metanfetamina para garantir o futuro da família.
E sendo isso de conhecimento amplo, geral e irrestrito FHC defende, aspas, a Constituição que ele comprou há 16 anos?
FHC, no fim de sua jornada, lamentavelmente vai se tornando parecido com o sinistro Carlos Lacerda, o homem – ou o Corvo, como era conhecido — que esteve por trás da morte de Getúlio e da deposição de Jango.
FHC, em nome sabe-se lá do que, se presta hoje a fazer o jogo de uma direita predadora que, à míngua histórica de votos, faz uso indecente de “campanhas contra a corrupção” para derrubar administrações populares.
É, numa palavra, o antipovo.
Sêneca, numa de suas passagens mais inspiradas, disse o seguinte: “Quando lembro de certas coisas que disse, tenho inveja dos mudos”.
É uma passagem que se aplica perfeitamente a FHC.