Deltan ainda tenta virar “pizza”

Os jornais anunciam uma intensa operação corporativa, ajudada por uma mobilização dos grupos de ultradireita, para “salvar” Deltan Dallagnol de sofrer sanções na terça-feira, quando se julgarão duas das oito representações contra ele no Conselho Nacional do Ministério Público.

Pelo ritmo acelerado que tomaram as revelações sobre seus abusos e violações, não creio que se chegará lá em condições de promover o “abafa” que desejam, mas é deprimente que tenhamos chegado a um ponto pior do que sugeria um filme italiano dos anos 70, Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita.

Nele, um chefe de polícia- interpretado pelo magnífico Gian Maria Volontè – assassina a amante – Florinda, ainda, Bulcão – e o crime, embora evidente, não pode ser atribuído a ele pelo fato de que, sobre um alto comissário policial, não se pode ter suspeita.

Porque ele, além do cargo, tem um enorme e reconhecido papel na repressão política: “repressão é civilização”, diz o personagem intocável.

No nosso enredo tupiniquim, o cidadão Dallagnol também está acima de suspeitas como imune a investigações, não só pelo cargo mas, sobretudo, pelo papel político que exerceu?

Se a mídia brasileira estivesse disposta a tratar o assunto à luz do interesse público, bastaria uma questão simples para esclarecer as dúvidas: se mensagens hackeadas evidenciassem que uma concorrência era fraudada, poderiam prevalecer os contratos que ela gerou?

O que está em questão não é, é claro, o direito a sigilo absoluto em negócios públicos, como é a atuação dos promotores e do juiz que representam o Estado em processos judiciais. A discussão é se o integrante de uma corporação estatal goza de impunidade absoluta diante das evidências de que se desviou – e muito – dos seus deveres institucionais.

De outra forma: se um procurador – e, amanhã, um juiz – pode fazer o que quiser, como quiser, contra quem quiser, desde que seja em nome de uma “moralidade” que a tudo justifica.

A situação não é inédita, aliás, tem outro belo retrato cinematográfico em A Sede do Mal, filme de Orson Welles, onde o capitão Harry Quinlan, apoiado em sua fama de prender bandidos está livre para plantar provas, torcer a investigação e impor a “sua” lei.

Mas como há, até terça, 72 horas de agonia, ainda estamos longe de saber que o “abafa jato” se consumará.

Fernando Brito:

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  • O correto: afastar todos da operação abafa. São todos suspeitos.

  • Os amorais.
    Julgados e julgadores.
    Para que isso mude, precisam apenas fazer o que a lei é a ética moral mandam.
    Nada mais queremos.

  • O correto é acabar com ESSA MERDA de "lava-jato".
    Está COMPLETAMENTE DESMORALIZADA.
    Uma VERDADEIRA BOSTA !

    • A cada dia que passa, se consolida a certeza de que a lava jato é um cabide de emprego para pessoas com grandes ambições e de caráter pequeno.

    • Concordo.
      E com a devida punição a cada transgressor, nos termos das transgressões cometidas, e ainda que não mais façam parte da organização criminosa Lava Jato!

  • Deus me perdoe, mas se Dallagnol sair ileso, vou torcer pelo pior no Brasil.
    O contrário significará a vitória do mal/mau.

  • O abafa vai consumar-se sim.
    Aquela que alguns subordinados acham que deveria ser incinerada pautou a audiência da próxima terça feira com duração de apenas 3 horas.
    Cartas marcadas.

  • Oficialmente este é o mafioso-chefe da quadrilha 'Farsa a Jato', mas de fato é o marreco de Maringá, sendo que os dois recebem ordens da cúpula golpista do DoJ, CIA, NED, FBI e outros malfeitores internacionais acanalhados.

  • Eles sabem que punir Deltan é, acima de tudo, legitimar a Vaza Jato.

  • Investigação sobre um cidadão suspeito até o talo.

    É assim a frase correta para a ilustração da matéria.

  • "Ideologia de gênero é coisa do capeta".
    Capeta é o cara que orienta sua mente, capitão. Calado o senhor está errado.

  • A FT Lava Jato pode ser dissolvida em setembro. Os cães de guerra voltarão ao canil, pois os invasores já dominam todas as instituições da ex-república. A ditadura se instalou e agora lança raízes, para uma longa permanência.
    O caráter da elite escravista não mudou nada em mais de cem anos. Continua racista, autoritária e retrógrada. Aprimorou-se apenas nos requintes de crueldade.

    • Nesse contexto, Moro, Dallagnol e a FT não passam de fusíveis a serem queimados para que o circuito siga funcionando.

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