A ombusdwoman da Folha, a quem respeito pela tarefa hercúlea de criticar o incriticável, deveria pensar em usar um pouco da acrimônia com que classificou Reinaldo Azevedo como “rotweiller” – um exagero verbal e de grau – para algumas atitudes da redação do jornal.
Suzana Singer observa, como destacamos aqui, que a “manchete de sexta-feira passada da Folha -“Prefeito sabia de tudo, diz fiscal preso, em gravação”- induzia o leitor a erro. O prefeito de São Paulo é Fernando Haddad, mas a referência no grampo era a seu antecessor, Gilberto Kassab.”.
As explicações da Redação, obviamente, são pífias, justamente porque a indução do leitor a erro foi deliberada.
“A Folha optou por transcrever a declaração do fiscal de forma literal, já que ele não citou nenhum nome e exerceu funções de confiança tanto na gestão atual como na anterior”, diz a Secretaria de Redação.
O excesso de zelo ficou só na manchete, já que a hipótese de que a frase do fiscal pudesse ser uma referência a Haddad não foi explorada na reportagem. O “outro lado” foi apenas com Kassab, que classificou as declarações de falsas, mas não cogitou que o fiscal estivesse falando de outra pessoa.
O jornal foi mais realista que o rei, numa cobertura bem delicada(…)”
Deduza o sábio leitor e a atilada leitora o que vêm a ser realismo e rei, neste caso.
Bem, afinal, a Folha também tem agora o “Tio Rei”, o rottweiller de Singer, para simbolizá-lo.
Mas, em matéria canídea – da qual o jornal parece imbuído – a atitude se parece mais com a do lobo da fábula, que dizia ao cordeiro que quem sujou a água do rio, “se não foi ele, foi seu pai ou seu avô”.
E se justifica, tristemente, com o fato de um dos acusados citar, sem maiores elementos, um dos atuais secretários da prefeitura.
A arrogância do jornal é tanta que o poder de crítica interna acaba tendo de caminhar no mesmo trilho para não ter de condenar o erro ao seu remédio possível: assumi-lo e tentar corrigir, mesmo que em letras miúdas.
Mas isso é impossível à Folha: a decadência é sem elegância.