Os deuses mandam flores à família de seus mortos

É dolorosamente cínica a nota que as associações de policiais, procuradores e juízes federais divulgaram  ontem, através da Folha.

Cumprida a formalidade burocrática de apresentarem pêsames e dizer  – caponianamente – que “se solidarizam com sua família nesse momento de dor” dizem que “vêm a público repudiar afirmações de eventuais exageros”  na operação que levou à prisão e à morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier.

E por que não houve “eventuais exageros”?

Houve investigação dos procedimentos adotados? Não

Houve reavaliação sobre o ato de prender alguém sem ouvi-lo, pela simples alegação de uma ou duas pessoas de que ele “não queria” investigar supostos problemas que teriam ocorrido, inclusive, fora de sua gestão? Não

Algum tipo de reflexão sobre o significado de levar à cadeia um reitor já pelos seus 60 anos, tirar-lhe as roupas, penetrar-lhe as intimidades? Não.

Sabe por que delegados, promotores e juízes federais podem garantir que não houve “eventuais exageros” no episódio?

Porque, para eles, as corporações de  deuses da lei, não há limites e, portanto, não há exageros.

Os integrantes das respectivas carreiras, não apenas na referida operação, como também no exercício de suas demais atribuições funcionais, norteiam-se pelos princípios da impessoalidade e da transparência, atuando de forma técnica e com base na lei.”

E o que o garante? Ora, eles próprios e, por isso, nem é preciso investigar e reavaliar. La garantia somos nosotros, los dioses.

Criticar-se erros policiais e judiciais agora é fazer aquela coisa sórdida, a política: “uma tragédia pessoal não deveria ser utilizada para manipular a opinião pública”.

Que manipulação, doutores? Um ou outro colunista de jornal reclamando?

Porque a grande mídia manteve quase completo silêncio e, ao contrário, participou da história de que o homem agora morto tinha desviado dinheiro num tempo em que nem dirigente da Universidade era.

Sublimes, do seu Olimpo, dizem: “as autoridades públicas em questão, em respeito ao investigado e a sua família, recusam-se a participar de um debate nessas condições”.

Quais são as condições que “podem”? Aqueles em que vocês estão sempre certos e o resto “não vem ao caso”?

Vocês deixaram, faz tempo, de representar a lei e a Justiça. Representam, agora, a arrogância, a desumanidade e a soberba autoritária.

Deveriam, a esta hora, estar pedindo e colaborando para esclarecer a tragédia da morte de um homem.

Mas se não são capazes disso,  fiquem quietos e não produzam tal cinismo.

Respeitem, ao menos, a família do morto e seus amigos.

 

Fernando Brito:

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    • Que injusto que você é, Jorge! Toda a polícia, o judiciário e seus anexos não valem um tostão furado. Não há e nunca houve justiça neste país. A polícia federal e o ministério publico, por exemplo, usam prender e torturar para obter delações premiadas por vagabundice. Eles não tem competência e conhecimentos para sair às ruas e fazer investigações como são feitas na França, na Alemanha, Suíça, sem estas demonstrações vulgares de histrionismo caipira e depois trazem ao Brasil o resultado de seus achados... E o judiciário brasileiro faz de conta que não viu porque estas investigações feitas com competência e sem alvoroço acusam justamente aqueles que eles protegem: os políticos do psdb.

  • Na última sexta feira, no voo noturno Brasília-Porto Alegre, da Avianca, estes 'deuses' decidiram retirar um passageiro de mais de 70 anos por suposta agressão a uma bela senhora na hora do embarque, já com duas horas de atraso. No corredor do avião ele teria segurado o pulso da bela enquanto ela colocava sua maleta no bagageiro. A reação desta mulher foi extremamente violenta: gritou e bateu no velho além de te-lo chamado de filho da puta. Alguns minutos após, dois policiais federais entraram no avião, não ouviram ninguém a que eu saiba (eu estava na fileira logo atrás do velho), e levaram o senhor para fora do avião. Espero que ele esteja vivo ainda. Mas perdeu o voo. E a bela senhora, que suspeito pertencer a uma casta cada vez mais saliente , não teve qualquer prejuízo por ter agredido um idoso, claramente humilde e vestido com simplicidade.
    Fico imaginando qual a formação de um sujeito que decide , por convicção, impedir uma pessoa de viajar?

    • A Questão que você coloca é muito séria João, não houve uma só pessoa em defesa do Idoso? A "bela senhora" deveria ter sido denunciada por , ao menos, uma testemunha que se insurgisse contra a DESORDEM INSTITUCIONAL que grassa neste país. A bela frase - AS INSTITUIÇÕES FUNCIONAM NORMALMENTE, NÃO parte de um Democrata e sim de um FASCISTA, para eles está tudo em perfeita ordem e o brasileiro é um povo ordeiro, na verdade tem sido CORDEIRO em plena imolação. TUDO PELA CIDADANIA!

  • Um caso SÉRIO, tanto quanto essa crise política, é saber como é a ENTRADA de armas pára as comunidades ou favelas.

  • ... Ainda sobre os assassinos [seletivos] de reputações em favor do golpe vagabundíssimo ainda ora em curso...

    ***

    DELEGADO E EX-REPRESENTANTE DA INTERPOL APONTA ABUSOS NO CASO DO REITOR

    Quem matou o reitor foi quem concorreu para a degradação pública de sua história. A vítima não teve direito à subjetividade da amargura, nem à dor com a qual não conseguiu viver. A imprensa jogou sal na subjetividade de uma ferida idiossincrásica. Coisas do limite humano! E agora, cumpre perguntar: quem promoveu a degradação pública de pessoas, destruiu biografias - inspirado numa série de outras similares? Que juiz para proferir uma sentença, ora assume papel de acusador, ora de palestrante formador de opinião pública?, questiona Armando Rodrigues Neto, delegado aposentado da PF

    9 DE OUTUBRO DE 2017

    (...)

    FONTE [LÍMPIDA!]: https://jornalggn.com.br/noticia/o-cadaver-do-reitor-explica-o-sentido-da-operacao-ouvidos-moucos-por-armando-coelho-neto

  • O cadáver do Reitor explica o sentido da Operação Ouvidos Moucos
    Por Armando Coelho Neto - jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

    DELEGADO E EX-REPRESENTANTE DA INTERPOL APONTA ABUSOS NO CASO DO REITOR

    Quem matou o reitor foi quem concorreu para a degradação pública de sua história. A vítima não teve direito à subjetividade da amargura, nem à dor com a qual não conseguiu viver. A imprensa jogou sal na subjetividade de uma ferida idiossincrásica. Coisas do limite humano! E agora, cumpre perguntar: quem promoveu a degradação pública de pessoas, destruiu biografias - inspirado numa série de outras similares? Que juiz para proferir uma sentença, ora assume papel de acusador, ora de palestrante formador de opinião pública?, questiona Armando Rodrigues Neto, delegado aposentado da PF

    9 DE OUTUBRO DE 2017

    (...)

    FONTE [LÍMPIDA!]: https://jornalggn.com.br/noticia/o-cadaver-do-reitor-explica-o-sentido-da-operacao-ouvidos-moucos-por-armando-coelho-neto

  • Como ele senorteiam-se pelos princípios da impessoalidade e da transparência, atuando de forma técnica e com base na lei.”
    Do Blog d Nassif de Raquel Wandelli

    #EXCLUSIVO | PADRE DENUNCIA: "FOMOS IMPEDIDOS DE PRESTAR APOIO ESPIRITUAL AO REITOR QUE SE SUICIDOU"
    Ao celebrar missa em homenagem ao reitor Luiz Carlos Cancellier neste domingo (8/10), pela manhã, no Templo Ecumênico da UFSC, o padre William Barbosa Vianna fez uma denúncia espantosa: ele e outro frei foram impedidos ao menos quatro vezes pela Polícia Federal de oferecer apoio ao reitor, embora esse direito seja garantido pela Constituição. Cancellier foi preso, algemado nu, submetido a exame interno vexatório e encarcerado sem processo judicial.
    Segundo o padre, a primeira recusa ocorreu quando a Pastoral Carcerária tentou visitá-lo no dia da prisão, em 14 de setembro. A segunda, quando a prisão de Cancellier foi relaxada, mas a juíza o manteve exilado da universidade e em reclusão domiciliar noturna. Sabendo de seu abalo emocional, os padres novamente tentaram socorrê-lo, mas não obtiveram permissão para visitá-lo, mesmo tendo essa prerrogativa.por lei.
    Assessor da Pastoral Universitária da UFSC, Vianna alertou: “É preciso lembrar que o direito à assistência religiosa é garantido pelo artigo V da Constituição”. Até então, sabia-se apenas que Cancellier foi privado do apoio de amigos, principalmente de pessoas de sua convivência na gestão da universidade. Durante la missa, Vianna eu o artigo V da Constituição, inciso VII: “É assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva”.
    Este é o Brasil que se tornou insuportável com esse stf de merda.

    • ... Renato Arthur "manda um recado para o Fernando Brito":
      "por favor, retifique o título desse excelente 'post':
      'Os Demônios assassinos mandam espinhos para as famílias das suas vítimas!'"

  • Obrigado Brito por expressar tão bem o sentimento de muitos brasileiros que ainda respitam os seus semelhantes.

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