A lógica macabra de Bolsonaro

Duro, mas irrespondível em suas razões o artigo de Celso Rocha de Barros, hoje, na Folha, mostrando como Jair Bolsonaro tem lá a sua lógica eleitoral, ainda que macabra, no seu desprezo pela morte de dezenas – e, logo, uma centena – de milhares de brasileiros.

Os mortos, que já não votarão, talvez mobilizem suas famílias e amigos, mas estes serão “apenas” alguns milhões. Para muitos mais, haverá para culpar pela crise econômica aqueles que os tentaram salvar pelo isolamento.

Por que não deveriam morrer? Afinal, eram – diz Bolsonaro – velhos, doentes, inúteis, improdutivos, estorvos.

Eram também pais, avós, maridos, mulheres? E daí?

Bolsonaro já precificou a sua morte, leitor,
e conta que ainda dá para ganhar a eleição

Celso Rocha de Barros, na Folha

O Brasil deve chegar a 100 mil mortos na pandemia nas próximas semanas. É duas vezes o número estimado de brasileiros mortos na Guerra do Paraguai. Mas Bolsonaro aposta que genocídio não custa voto.

Se morrer 1 milhão de pessoas, e seus, digamos, dez parentes e amigos próximos se revoltarem contra Bolsonaro, ainda não é gente suficiente para colocar um candidato presidencial no segundo turno. Como notou o cientista político Christian Lynch, os que morreram não vão votar.

Se você adoecer e morrer, Bolsonaro perderá seu voto, mas nenhum adversário de Bolsonaro tampouco o terá.

Bolsonaro já precificou a sua morte, leitor, e conta que ainda dá para ganhar eleição sem os votos de sua viúva e de seus órfãos.

Para que isso seja verdade, algumas condições precisam ser satisfeitas.

Em primeiro lugar, é preciso que os sobreviventes não sintam qualquer empatia com as vítimas. Aqui a tradição joga a favor de Bolsonaro: o Brasil, de fato, não tem qualquer tradição de empatia com pobre morto.

Bolsonaro mente para o público que os que morreram já eram velhos, já eram doentes, já iam morrer, mesmo, não é o caso de chorar. Além disso, se você convencer o público de que só esses que morreram corriam riscos, é menos provável que as pessoas façam a pergunta que funda a empatia, “E se fosse eu?”.

Daí em diante é contar com a dificuldade humana para lidar com contrafactuais, com cenários do que teria acontecido com o Brasil se Bolsonaro não fosse o pior presidente do mundo. Fazer esse raciocínio nunca é fácil. Mas é bem mais difícil se você não conhece os fatos.

Bolsonaro tenta manter seus seguidores fiéis “protegidos” da ciência e da imprensa profissional. Para isso, tenta lhes despertar a sensação de que são os malandros que ninguém engana, os que tomaram a pílula vermelha do Matrix, que descobriram a verdade, que não serão iludidos pelo que diz a “mídia esquerdista” ou os “cientistas comprados pela China”. Não tem estelionato que dê certo se você não conseguir que o otário sinta que quem está sendo malandro é ele.

Se você está na bolha bolsonarista, você não sabe que na Argentina, onde fizeram o isolamento, morreram em todos esses meses menos do que morrem no Brasil em três dias de pandemia.

Você não sabe que na Nova Zelândia, que também fez o isolamento, não há mais casos de Covid-19, e a vida voltou ao normal.

Você não sabe que o governo Bolsonaro só gastou 11% dos recursos destinados a combater a epidemia (governos estaduais receberam 39% do prometido, municípios receberam 36% do prometido).

Sem a comparação com outros países, é mais difícil ter noção de que o longo platô de mortos —um número estável e alto de mortos por dia durante meses — vai atrasar mais a recuperação econômica do que qualquer quarentena que Bolsonaro não tivesse sabotado. Ninguém no mundo resolveu a economia antes de resolver a pandemia. Nós não resolvemos a pandemia.

Ainda é cedo para dizer se matar 100 mil pessoas custa votos no Brasil. Nos Estados Unidos, a reeleição de Donald Trump parece seriamente ameaçada. Aqui, o clima anda mais para acordão. Sabe como é, você anistia 500 assassinatos, passa uns anos, os caras aparecem querendo que anistie mais 100 mil.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

15 respostas

  1. Má sORTE para a direita e seus sabujos sujos: militares (menos o Almirante Othon), parlamentares politiqueiros/as, judiciário acovardado e cretino, classe méRdia ignorante e alienada, burocratas burros (burrocratas), funcionários/as públicos/as pelegos/as (só os/as pelegos/as), religiosos crentinos e pobres adoradores de seus opressores…

  2. Anistiou 500 assassinatos porque indígena não é gente e não entra na conta, senão, seriam 8500 assassinatos.
    É como eu disse, Bolsonaro não é o único responsável pelo genocídio. Entram nessa conta, por ação, as FFAA e por omissão (que não deixa de ser ação), o Congresso, o Ministério Público, o Judiciário, a grande mídia, os governos estaduais e municipais que cedem à flexibilização antes da hora por pressão econômica e também pelos desvios de verba e os conselhos de medicina e médicos que estão dando vazão à insanidade presidencial para desovar os absurdos estoque de hidroxcloroquina comprovadamente ineficaz no tratamento da COVID 19. A falta de empatia pode levar a patologias graves como a do genocida Bolsonaro e seus asseclas, mas também à psicopatias mais leves como a da população brasileirae que não está nem aí para esse morticínio e continua frequentando prais e locais públicas como se nada estivesse acontecendo.

  3. E a esquerda brincando de eleição, iludindo o povo e se iludindo com a ideia que os caras que gastaram tanto dinheiro e tiveram tanto trabalho para colocar seus jagunços no poder irão abrir mão deste poder tão facilmente.

  4. Talvez seja por isso que os Governadores estão cancelando festa de final de ano, carnaval e outros eventos. Para deixar o Brasil com cara de velório, que é o que é, e tentar tirar de Bolsonaro a narrativa de que já passou. Criar um clima fúnebre, para criar um clima de constrangimento, vergonha, nojo. Para o Bozo não conseguir precificar as mortes. É uma estratégia.

  5. REPITO:
    Criar uma legião de miseráveis,estender a praga da fome e matar o maior número de Brasileiros é o projeto dessa gente,por isso absorvo tantos processos quantos vierem,pago a cadeia que tiver de pagar(se me encontrarem) mas posto todo santo dia:- É preciso matar bolsonaro!

    1. O duro é que matar o bozo vai dar ainda mais fôlego pra massa de imbecis, vai martirizá-lo. “Os comunistas covardes mataram o grande líder porque jamais seriam capaz de vencê-lo com meios honestos!”
      Mesmo que ele morra por COVID-19, vão dizer que foi complô sino-comunista-petista e é óbvio que muito otário vai acreditar.

    2. O duro é que matar o bozo vai dar ainda mais fôlego pra massa de imbecis, vai martirizá-lo. “Os comunistas covardes mataram o grande líder porque jamais seriam capaz de vencê-lo com meios honestos!”
      Mesmo que ele morra por COVID-19, vão dizer que foi complô sino-comunista-petista e é óbvio que muito otário vai acreditar.

  6. A oposição está jogando no colo de Bolsonaro as mortes da epidemia? É muita burrice para quem acha que sabe melhor, mas onde governa não fez melhor. Nossa oposição que se referencia na OMS, envolvido no jogo mundial de reset da economia advoga o isolamento ad infinitum sem considerar recomendações outras que não as da OMS, sem buscar onde a epidemia foi vencida as diretrizes para vencê-la. A oposição aculturada pró-OMS nem resolve nem se qualifica para nada. Bolsonaro está eleito graças aos “cientistas” que se informam por BBC, Globo, El País, DW mas não leem Gramma nem procuram saber pq o Vietnam tem zero mortes.

    1. Bolsonaro está eleito graças a desinformação,graças a jegues escoiceadores.
      Diga aí Pedro Bó quais outras diretrizes foram usadas?

    2. Bolsonaro está eleito graças a desinformação,graças a jegues escoiceadores.
      Diga aí Pedro Bó quais outras diretrizes foram usadas?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *