Bolsonaro está só e isso faz dele mais perigoso

Já tem algum tempo que Bolsonaro manda, mas não governa o país. E como não há vácuo na política, o Centrão assanhou-se para, imediatamente, transformar sua derrota na escolha do novo ministro da Saúde em um vitória em escala maior: tornar-se ele próprio o condutor da questão mais importante do país, hoje.

O discurso de ontem de Arthur Lira, muito menos refinado que seu congênere no Senado, Rodrigo Pacheco, embora adoçado por pedidos de “união nacional” e outras bobagens fáceis e simpáticas do politiquês, disse para os ouvidos presidenciais que, se não partilhar o poder com a Câmara (leia-se, o seu grupo), ficará sem poder algum.

Não é bem assim e é provável que Bolsonaro esteja executando apenas um recuo tático, enquanto inventaria – e tenta recuperar – o seu comendo sobre as forças que sempre contou como suas.

A começar pelas Forças Armadas, assustadas pelos reflexos da catástrofe Pazuello sobre sua imagem pública. Não é segredo que os generais da ativa não apenas queriam Eduardo Pazuello fora como também não o querem de volta ao serviço ativo. Causou imenso descontentamento, também, a notícia de que Jair Bolsonaro pretendia subverter a hierarquia militar para dar uma quarta – e irregular – estrela a seu “general sanitário”. Pior ainda a possibilidade de que acabasse ocorrendo, com Pazuello no Ministério ou na caserna, alguma medida judicial indicando sua responsabilização sobre a mortandade em Manaus.

Bolsonaro também percebeu – aliás, porque mais do que evidente – que a base parlamentar majoritária que formou com a aliança com o Centrão estava se desfazendo. A sociedade ilimitada com o”Mito”, com o aumento de sua rejeição, estava se tornando tóxica à grande maioria dos parlamentares fisiológicos – mais do que conservadores. Além do mais, a “pindaíba” das contas públicas, mesmo com todo absurdo das “emendas parlamentares”, não prometia, até aonde a vista alcança, grandes vantagens em obras e convênios eleitorais.

Some a isso, ainda, a linha de confronto que se estabeleceu entre o Planalto e os governadores, com inevitáveis reflexos sobre a fidelidade entre estes e os deputados.

O terceiro fator é a economia, onde não só os indicadores, mas a “Carta dos Economistas” (que mais propriamente poderia ser chamada de “Carta do Mercado”) abre um pesada bateria de artilharia contra a política (??) econômica de Paulo Guedes. O jornalista econômico José Paulo Paulo Kupfer, no UOL, resumiu bem a situação: “ao negar a doença e desprezar a cura, Bolsonaro e seu governo afundaram a economia”.

Por rúltimo, mas não menor, o retorno impactante de Lula ao quadro eleitoral, criando, finalmente, um polo visível – e como! – e popular de oposição.

Tudo isso junto e misturado está fazendo minguar Bolsonaro na opinião pública e o ex-capitão sabe que é preciso conter este processo. É tão nítido que até alguns sonhadores da direita sonham em que o há pouco favorito chegue ao ponto de não ir sequer ao segundo turno, algo que ainda é improbabilíssimo.

O problema de Bolsonaro é que ele não pode parar de servir, mesmo em quantidades mínimas, a ração de ódio e estupidez com que alimenta seus fanáticos, patrimônio original e indispensável de seu negócio político eleitoral.

Daí porque Bolsonaro pode até aceitar ser encurralado entre as vidraças do Planalto, mas não vai abrir mão se sair em suas cavalgadas de ódio, rugindo ameaças.

Que, por tudo o que já vimos, não devem ser subestimadas.

 

 

 

 

 

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