Cristina Serra: Bolsonaro é fruto das “instituições funcionando”

Os três “jornalões” fazem, em editoriais, seu costumeiro coro chocho e tardio às patadas dadas por Jair Bolsonaro no domingo, ao dizer que tinha vontade de “encher de porrada” a boca de um repórter por perguntar sobre os cheques de Fabrício Queiroz na conta de Michelle. Basicamente, repetem a pergunta que sucede àquela de “Cadê o Queiroz?” como bordão do silêncio presidencial.

Antes tarde do que nunca, claro, mas não o bastante.

Afinal, corrigir erros tem como requisito básico reconhecê-los e isso a nossa grande imprensa está a anos-luz de fazer.

Ao contrário, insiste num mantra hipócrita de quem assistiu e apoiou a ascensão de um monstro, a preparação de um desastre e o ensaio de um regime autoritário.

Continua a demonizar os políticos como se todos fossem iguais e desprezíveis, sem reconhecer que com isso levaram à instituição de um governo sem o sistema de freios e contrapesos da política, mas vinculado apenas aos (maus) humores presidenciais.

Hoje, em sua coluna na Folha, a jornalista Cristina Serra vai ao ponto: as instituições toleraram e naturalizaram Bolsonaro – acrescento ao que ela diz o fato de terem se utilizado dele como cavalo de Troia para alcançar o poder – e estão gemendo agora pelas dores do tumor que deixaram crescer ( e de novo adendo eu, nutriram) e estão fadadas a, não o extirpando, serem destruídas por ele.

O tumor Bolsonaro

Cristina Serra, na Folha

Não sou ombudsman, mas me permito usar este espaço para algumas reflexões. No sábado, o editorial desta Folha trouxe o título “Jair Rousseff”. O texto se refere ao desequilíbrio das contas públicas no governo da ex-presidente e à tentação do atual fazer o mesmo.

A fusão dos dois nomes é um ultraje à ex-presidente. O título chamativo não poderia ter prevalecido sobre o simples bom senso ou o respeito à história de Dilma Rousseff. Na aprovação do impeachment na Câmara, Bolsonaro votou em homenagem ao torturador Brilhante Ustra, algoz da ex-presidente quando de sua militância contra a ditadura. “O pavor de Dilma Rousseff”, tripudiou o então deputado.
Bolsonaro deveria ter saído preso da Câmara naquele dia por apologia à tortura, crime de lesa-humanidade. E, no entanto, aquele foi o ato inaugural de sua ascensão ao poder. Que fizeram as instituições? Câmara? Supremo? Ministério Público? Funcionaram “normalmente”.

Mas a assimilação de Bolsonaro como algo natural pelas instituições começou muito antes. No fim dos anos 1980, o Superior Tribunal Militar ignorou as provas de que o então capitão participara de um plano para explodir bombas em quarteis e o absolveu. Foi a deixa para Bolsonaro iniciar carreira parlamentar tão longeva quanto medíocre, marcada por ofensas a mulheres, negros e homossexuais e pela defesa da tortura e da execução de uns “30 mil”.

Sua atuação parlamentar foi tratada como rebotalho caricato e extemporâneo da ditadura. Conselho de Ética? Corregedoria? Ah, sim, as instituições funcionaram “normalmente”. E assim chegamos ao ponto em que milhões de eleitores identificaram nele o comando e a síntese do autoritarismo brasileiro. As instituições, inclusive a imprensa, absorveram Bolsonaro como um corpo doente se acostuma a hospedar um tumor. Um dia, o tumor explode e mata o hospedeiro. A propósito: “Presidente Jair Bolsonaro, por que sua esposa, Michelle, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?”.

PS: Já recomendei aqui e volto a fazê-lo: Cristina tem um excelente blog, que merece ser visitado por todos.

 

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