É Bolsonaro, não Pazuello, quem afronta a disciplina militar

No xadrez das relações entre o poder civil da República e as Forças Armadas, o general da ativa Eduardo Pazuello é apenas um peão que foi adiantado para provocar movimentos que facilitem a Jair Bolsonaro outros movimentos, mais ousados e efetivos.

É claro que, inquirido, Pazuello mentirá aos seus superiores como mentiu descaradamente na CPI da Covid e dirá que foi ao palanque do batalhão de motociclistas de Bolsonaro espontaneamente, por sua própria vontade e não por convocação presidencial.

É assim o seu caráter; sua honra é como um cenário teatral: aparenta castelos, é só tapume.

Não se trata, portanto, de verificar a autenticidade do que diz este general, mas de saber quem o movimentou para esta posição em que será, certamente, sacrificado (sacrifício leve, com patente e soldo farto).

A questão é o que se busca ao levá-lo para o brete do Regulamento Disciplinar do Exército.

Ontem à noite já se apontou a quem a situação encurrala: o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, espremido entre a reação de seus pares e a obediência ao presidente da República, seu comandante em chefe, mas não para se abster da administração disciplinar de seus comandados.

A intenção de Bolsonaro parece clara: evitando ou mitigando (chegou a falar-se numa vergonha fraude, passando Pazuello para a reserva “retroativamente”, com data de sexta-feira, para que seu papelão no domingo não fosse transgressão) a punição necessária, ou fazendo-a muito frágil – por exemplo, uma advertência restrita – estimule nas patentes mais baixas a quebra do dever de obediência aos regulamentos e a insubordinação aos comandos regulares em nome de uma suposta obediência ao Presidente.

Há, ainda, outro detalhe que, numa trama sórdida como esta, merece atenção. É que ontem o presidente viajou para o exterior, para a posse do presidente equatoriano Guillermo Lasso e, portanto, formalmente ausente das “negociações” – como se coubesse negociar com o Comandante do Exército – sobre a punição de Pazuello.

E, se e quando ela ocorrer, reclamar da perseguição que sobrem os “democratas”, até no Exército, por um simples “passeio cívico”.

Por enquanto de motos, mas, nos perigosos delírios presidenciais, quem sabe, de tanques.

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