Merval e o ‘lulobilau’. Lacerda encontra Freud

Hesitei um bocado na manhã de domingo para escrever sobre a coluna de Merval Pereira, com direito a chamada de capa em O Globo, com uma dissertação inacreditável sobre os efeitos erótico-eleitorais da foto que o ex-presidente Lula publicou nas redes sociais, abraçado à sua mulher Rosangela Janja Lula, tendo a lua como fundo numa praia do Ceará.

Não que a obsessão de Merval com as fotos de Lula seja nova: já criticou as que o ex-presidente tirou com o uniforme laranja da Petrobras, a da geladeira de isopor carregada na cabeça numa praia na Bahia e até a vestido de caipira numa festa junina, com Marisa. Nem que Lula usar uma bem comportada sunga de banho seja coisa nova, há várias fotos assim, inclusive recentes e dispensam-se explicações sobre isso ser normal a qualquer um, a menos que Pereira, já aos 71 anos, ache que gente da nossa idade devesse usar aquelas ceroulas de aqualoucos.

Mas ela agora chegou ao delírio. Por alguma razão psicológica que só Freud explica, diz que na foto – do ótimo Ricardo Stuckert, fotógrafo que acompanha Lula há muitos anos – “as coxas saradas de Lula transformaram-se em objeto de desejo de homens, e principalmente, de mulheres”, isso na parte mais suave de suas observações.

Discorre sobre a intenção de Lula em demonstrar a sua “boa forma física” – algo absolutamente relevante contra quem se levanta o argumento estúpido de ser “velho” – e compara à foto do russo Vladimir Putin, cavalgando de torso nu.

Mas aí escorrega num ato falho que, se vivo, seria muito bem explicado por Sigmund Freud:

— Estava de sunga, e houve até quem comemorasse, sob ela, o pressentido bilau do Lula. Essa demonstração de virilidade senil claramente não foi planejada, mas a certas fãs é um detalhe fundamental do mito.

“Pressentido bilau do Lula”, Merval? Realmente é, para mim, uma faceta nova do “.jornalismo investigativo”. Ou será que lhe teremos a expressão lulopetismo por um “lulobilau” de agora em diante?

Os interesses observacionais de Merval Pereira, porém, são de sua conta, como lhe pertencem as suas opiniões sobre o que cada um traz como atributos eleitorais capazes de impressionar os eleitores.

Teria deixado passar batido, não fosse o final de seu artigo onde ele nomina – a si e aos demais adoradores da Terceira Via, este Eldorado lendário – como “Diógenes e sua lamparina”, numa referência a Diógenes de Sinope, o grego que perambulava pelas ruas de Atenas e Corinto com um lanterna, dizendo estar à procura de um homem honesto.

O lampião de Diógenes – e a coincidência não é mero acaso – era o ícone do guru ideológico de Merval, Carlos Lacerda, que criou o malfadado Clube da Lanterna, com Amaral Neto (a quem chamavam de Amoral Nato) para conspirar, sucessivamente, contra Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Lacerda também fazia, ao revés, eroticopolítica: suas seguidoras eram conhecidas como mal-amadas, fruto da pena ferina do compositor e cronista Antônio Maria.

A coluna inacreditável de Merval Pereira traz à luz este novo encontro entre Lacerda e Freud, portanto.

E torcemos todos, com todo o respeito, que seja isso mesmo e não que se queira, com a lanterna, observar melhor as partes mais escuras da fotografia.

 

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