Nem autocrítica, nem reação. Direita e mídia querem ser vassalas de Bolsonaro?

Tenho repisado o fato de que a “direita não-bolsonarista” tem sido vítima do processo de assassinato político que sobre ela desfecha Jair Bolsonaro.

Moro, no exílio dourado da empresa que agora administra a falência da Odebrecht e da OAS que seus processos fizeram falir; Maia, humilhado em praça pública; Doria, chamado nas redes sociais de “agente da China” pelo fato de ter viabilizado a chegada da vacina que corresponde a mais de 80% dos imunizantes que o país tem, todos eles foram e estão sendo impiedosamente destruídos por terem sido, em algum momento, cúmplices do “Mito”.

Mas falta alguém neste inventário de culpas que é, também, a lista de vítimas de Bolsonaro: a imprensa.

Sem ela, como sem Moro e o movimento da classe média paulista que teve em Dória sua expressão eleitoral, não teria havido a histeria insana que possibilitou a ida de um psicopata à presidência do Brasil.

E, tal como os políticos da “direita já não bolsonarista”, deveriam saber que o primeiro passo para purgar-se uma culpa é reconhecê-la, o que nenhu mdeles, até agora o faz no ponto essencial: o de terem sido corresponsáveis pela desqualificação política de Lula e da esquerda, transformando-os de adversários em bandidos desqualificados.

E não são capazes deste gesto simples, mas de grande alcance: o de revertê-los à condição de adversários e não mais aqueles que devem ser excluídos sumariamente do processo político.

Ontem, no UOL, o lúcido jornalista Kennedy Alencar, em artigo imperdível no UOL, expressa a perplexidade por não estar sendo tratado, como assunto de interesse público, o grande escândalo de corrupção que se revelou em todo o processo da Lava Jato e seus desdobramentos políticos:

Se formos usar os critérios adotados por Moro na Lava Jato, ele poderia ser enquadrado como chefe de uma organização criminosa que combinou um crime com um operador. O então coordenador da força-tarefa da Lava Jato, o procurador da República Deltan Dallagnol, seria uma espécie de encarregado de cuidar do Departamento de Operações Estruturadas da Lava Jato, obedecendo ordens e orientações do comandante da Orcrim.
É normal um juiz orientar acusadores a obter provas e adotar estratégias contra a defesa? Em ditaduras, sim. Não nas democracias.
A Vaza Jato, série de reportagens com base no arquivo obtido pelo “The Intercept Brasil”, já havia exposto a corrupção do processo judicial que já havia exposto a corrupção do processo judicial que ocorreu na Lava Jato. Liberado pelo ministro Lewandowski, esse novo lote de conversas entre integrantes da operação deixa essa corrupção mais evidente.

Sim, evidente corrupção que, embora não completamente abafada, como em outras ocasiões, tem merecido mais que escasso espaço na imprensa e muito menos o tratamento de escândalo que compete dar a uma conspiração política entre juiz, promotores e, aliás, parte do jornalistas que participavam de uma “cobertura” quando não induzida por eles, cúmplice de seus propósitos.

Kennedy acerta outra vez quando diz que “antes da Vaza Jato, estava claro que havia manipulação de boa parte da imprensa. Com a Vaza Jato, ficou evidente que rolava um jogo combinado. Os novos detalhes liberados por Lewandowski deixam certo jornalismo muito mal na foto. Houve cumplicidade mesmo. Não tem autocrítica que repare isto”.

Ou melhor, Kennedy está quase certo, porque não há sequer o que ele diz em sua frase final: não há autocrítica, sequer mesmo a implícita, a que se faz revelando o processo do qual o jornalismo não foi vitima, foi cúmplice de um assassinato.

Cabe ao jornalismo, que tem este poder, cumprir o que em Direito se chama “arrependimento eficaz”: quando ao participar de um crime, voluntariamente, desiste de prosseguir na [sua] execução ou [se] impede que o resultado [final] se produza” e , então só se responde pelos atos já praticados.

À sua revelia, o acaso (e também o jornalismo do The Intercept) deu-lhe os meios de desfazer o processo de criminalização da política que, afinal, deu aos criminosos o controle da política em nosso país.

Mas imprensa e direita brasileiras são tão obtusas que não se arrependem nem por sua própria sobrevivência. E vai caminhando, brete adentro, para o matadouro bolsonarista, como gado.

 

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