O crepúsculo do macho

Meu xará Gabeira que me perdoe, mas Crepúsculo do Macho, seu livro mais conhecido, perdeu o título para a motofarra de Jair Bolsonaro hoje cedo em Brasília.

Nada contra motocicletas, claro, embora no Brasil elas sejam hoje sinônimo de trabalho precário, mal-remunerado e perigoso, o das centenas de milhares de entregadores de aplicativos que ziguezagueiam loucmente entre os carros, porque cada segundo é um centavo a mais no seu pouco ganho.

As motos da farreata de Bolsonaro são as caras, potentes como frequentemente seus donos já não são, destinadas a senhores bem-postos em suas fartas senilidade, que as usam, nos finais de semana, para desfilar seu falso desprendimento, com roncos barulhentos e agressivos como suas verdades babacas, como se cilindradas fossem QI e os luzidios cromados das motos fossem brilho intelectual.

Desfilam em festa no tempo seco e ensolarado do Planalto Central, indiferentes aos 420 mil mortos da pandemia, às mães em filhos e aos filhos sem mãe que a Covid deixou, às quase três dezenas de executados do Jacarezinho, aos milhões em fome no país arrasado por uma decadência econômica que deixa dezenas de milhões sem trabalho.

Milicos reformados, altos funcionários aposentados, bombadões herdeiros, negociantes que se dizem “falindo” todo o tempo mas compram Harleys Davidson e, claro, contam com alguns bobos de 125 cc que acham que duas rodas os põem na “alta roda”, passeiam em homenagem ao “direito de morrer”, absolutamente distante de seus narizes empinados ao vento, porque próximo estão só os que se amontoam em ônibus, trens e metrôs.

São, ao mesmo tempo, descompromissados e ameaçadores, como as gangues que, por um nada, podem avançar de correntes em punho e socos-ingleses, para dar no focinho de “maricas” que teimam em se preocupar com mortes aos milhares.

Os “machos” que dizem que “brasileiros preferem morrer lutando a perecer em casa”, mas que confessam nos capacetes o medo da morte que não previnem com as máscaras.

Machos aos quais a crendice da cloroquina tornam “invulneráveis” e que convidam os brasileiros a morrer.

A “economia” é sua pátria, não o povo que a alimenta.

Ainda que seja com suas próprias vidas, como canibais o fariam.

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