O forno do neoliberalismo

A terrível notícia da cremação em vida de pelo menos 46 pessoas – entre as 62 que se amontoavam no baú de uma carreta – no Texas não pode deixar de trazer à mente os campos de concentração do nazismo na 2a. Guerra Mundial.

Pode-se argumentar que, ao contrário dos prisioneiros de Dachau, Treblinka e de outros nomes que ficaram monstruosos, aquelas pessoas – sim, pessoas, seres humanos – não entraram ali à força, e até pagaram para uma tentativa de entrar onde não podem entrar no país dos seus sonhos.

Lá, onde, como nos portões de Auschwit, Arbeit match Frei, o trabalho te liberta, se você quer mesmo prosperar, com sua família.

Dois milhões de pessoas foram presas por tentar entrar lá, no ano passado, e o número está perto de ser batido: foram 239 mil detidos só em maio passado.

Morre-se assim lá, faz tempo, mas também na Inglaterra (39 vietnamitas, em Essex, em 2019), ou como 70 líbios na Áustria, em 2015, ou os milhares de afogados nas travessias de africanos para a Itália.

As fronteiras só são livres para as mercadorias inanimadas, não para as mercadorias humanas.

É o lado reverso e perverso do colonialismo, que não vai se resolver com muros, como aqui não se resolverá os problemas que a pobreza com grades e guaritas.

Não estamos fora disto, porque o número de brasileiros que a crise de nosso país leva à emigração ilegal para os Estados Unidos explodiu. Segundo a BBC, foram – de outubro de 2020 a agosto de 2021, 46.410 brasileiros detidos na fronteira Sul dos EUA, a mesma por onde passou o caminhão da morte. São seis vezes mais que os presos um ano antes (7.161).

Dos 46.410 brasileiros detidos de outubro do ano passado até agosto deste ano, a maioria tentou completar a jornada com suas famílias (34.636 ou 74,7%). Já 11.612 eram adultos viajando sozinhos. O restante — 157 — eram menores de idade e crianças desacompanhados, e cinco eram menores de idade acompanhados. Com o aumento dos que tentam a travessia ilegal, o Brasil passou a ser a sexta nação com o maior número de imigrantes detidos pelas autoridades americanas na fronteira sul do país, atrás do México, Honduras, Guatemala, Equador e El Salvador.

Será, realmente, que o melhor que o presidente brasileiro pode fazer por estas pessoas é uma motociata em Orlando?

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