O serpentário

Os jornais, esta manhã, apressam-se a ouvir “especialistas” que vendem a ideia de que a moribunda “Terceira Via” e Jair Bolsonaro saíram-se bem do deprimente 31 de março, o dia das traições e da desistência de Moro.

Muita calma nesta hora, porque o eleitor não funciona neste plano cartesiano e, mesmo quando alguém derrotado passa a apoiar abertamente outro – e, neste caso, isso não ocorreu e nem deve ocorrer tão cedo – transferência de votos não se dá como quem despeja uma caixinha na outra.

Apresentam, como “prova” de que Bolsonaro herdaria os votos de Moro as pesquisas com cenários onde o ex-juiz não aparecia para concluir que o atual Presidente se beneficiaria da desistência do ex-juiz.

Ora, é um fato que o eleitor do ex-juiz tem, em tese, um perfil ideológico de direita que indicaria isso. Mas também é fato que Jair Bolsonaro tem a rejeição absoluta de três quintos dos eleitores e isso funciona como uma barreira de contenção nada desprezível.

Contas, em eleições, são mais políticas que aritméticas e ainda há o fato de que, perto de formar maioria absoluta, um ponto a mais para Lula é mais decisivo que dois ou três transferidos para seus rivais na primeira volta, se isso é simultâneo.

Não é desprezível o fato de que, nas simulações de 2? turno – que cada vez se parece mais com o primeiro – onde a cena se resumia a Bolsonaro e Lula, a elasticidade das intenções de voto para o ex-presidente crescia numa proporção maior do que as do atual, a indicar que é mais fácil transferir-lhe a votação de quem sai da disputa do que ao atual mandatário.

Dizer que estas contas são políticas considera o impacto que terão sobre a cabeça do eleitor várias situações.

Lembremo-nos que o mais destacado adversário – neste caso, até, a palavra “inimigo” cai melhor – jogou a toalha e isso passa a mensagem de que há menor credibilidade em tudo o que ele disse, como juiz, sobre o ex-presidente.

Isto é, que o discurso antilulista fica menos crível, porque seu principal formulador, Moro, está em desgraça no conceito público.

Além disso, expôs-se, no palco onírico da “Terceira Via”, o espetáculo dantesco de um serpentário, no qual botes, dentadas e peçonha não faltam, numa exibição deprimente de desprezo pela situação de angústia em que vive a população que não vê – se é que as há – a preocupação com o país envolvida nestes debates.

Tudo é falso e sibilino e um dos destacados moristas da mídia, o inefável Diego Mainardi, o assume abertamente: “Sergio Moro não desistiu. Eduardo Leite não desistiu. Simone Tebet não desistiu.”

O mesmo desorezo pela vida real acontece nos discursos furiosos de Bolsonaro, como ela não fosse, nos temas mais preocupantes, amaciada num “eu não posso fazer nada” ou num “e daí”.

É preciso esperar para ver e, neste caso, o que parece ter surgido é uma equação de “perde-perde”, da qual aparentemente só Lula e Ciro Gomes sugerem ter saído intactos.

 

 

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