Promessas e desafios do novo governo dos EUA

 

 

Em que sentido se pode dizer que o Joe Biden representa uma ruptura, ou pelo menos uma descontinuidade, na história e na vida político-econômica americanas? Antecipando em três ou quatro frases o argumento que pretendo desenvolver aqui, diria que a descontinuidade parece maior no plano doméstico do que no plano internacional. No plano interno, a descontinuidade é realmente imensa – o que se tem é uma mistura de hiperkeynesianismo com social-democracia (no sentido europeu) – uma ruptura em relação às tradições americanas, especialmente dos últimos 40 anos. No plano internacional, o que Biden propõe é, essencialmente, um retorno ao padrão pré-Trump, guardando do seu antecessor certos objetivos, mas não os métodos. Se tudo der certo para Biden, o governo Trump aparecerácomo um desvio, infeliz, pouco inteligente, que enfraqueceu os Estados Unidos.

Hiperkeynesianismo e social-democracia desembarcam nos EUA

O hiperkeynesianismo de Biden se expressa, como é sabido, em uma política fiscal agressiva, que implica acentuada ampliação do gasto, inclusive social, e do investimento público. Ampliação que se sobrepõe à política fiscal expansionista já praticada por Trump em resposta à pandemia de 2020. O discurso de 100 dias de Biden no Congresso, cuja leitura recomendo vivamente, explicou a sua política em detalhe. Ressalto apenas um ponto: o plano de completar o welfare state americano. O estado de bem-estar sempre foi mais incompleto nos EUA do que, por exemplo, nos países europeus avançados ou no Canadá. O que Biden propõe, essencialmente, é recuperar esse atraso.

Repare, leitor, que esse atraso tem raízes profundas. Como notou o historiador econômico Adam Tooze, “se há um único fator que explica porque os EUA não tiveram um estado de bem-estar abrangente, esse fator é o racismo”. Welfare nos EUA era código para raça, e para dependência dos negros em especial, observa ele. Certíssimo. O racismo americano é uma grande realidade. E, acrescento, a eleição de Obama em 2008 foi um acidente de percurso, que não teria ocorrido sem a desastrosa crise financeira iniciada em 2007 e o fracasso do governo republicano de George W. Bush em antecipá-la e enfrentar os seus primeiros efeitos.

Biden quer romper com a herança nefasta do racismo. No discurso de 100 dias, ele disse com todas as letras que “supremacia branca é terrorismo” e relatou de maneira comovente o seu diálogo de um ano atrás com a filha pequena de George Floyd: “Ela é um tiquinho de gente”, contou Biden, “e tive que me ajoelhar para falar com ela e olhá-la nos olhos. Ela me olhou e disse: ‘Meu papai mudou o mundo’. Bem, depois da condenação do assassino de George Floyd, nós podemos ver como ela estava certa – se, se tivermos a coragem de agir como Congresso. Nós todos vimos o joelho da injustiça no pescoço dos americanos negros. Agora temos a oportunidade de fazer progresso real”.

Mas o imperialismo continua

Tudo isso é muito bonito e eu mesmo me emocionei. Fica, entretanto, faltando o reconhecimento pelos americanos de que essa mesma supremacia branca, esse mesmo racismo domina no plano internacional e sufoca, ou tenta sufocar, o desenvolvimento dos países emergentes e em desenvolvimento. Não quero, leitor, fazer retórica barata, batida, mas cabe a pergunta: onde fica o
imperialismo dos EUA com Biden? É aqui que a descontinuidade de Biden com o passado é menos clara. E, convenhamos, nem seria de esperar que fosse diferente. Biden foi eleito presidente dos Estados Unidos, para cuidar dos interesses americanos – só levará em conta os interesses de outros países se isso for conveniente do ponto de vista dos EUA. Humanidade, volto a lembrar, não existe do ponto de vista político.

Para responder à indagação sobre o imperialismo americano, parece necessário dar uns passos atrás. Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo viveu sob a hegemonia dos EUA e seus aliados europeus. O eixo Atlântico Norte, sob comando americano, mandava e desmandava. Nem sempre prevalecia, claro, mas constituiu o principal polo de poder. Com o colapso do bloco soviético e da própria União Soviética no final da década de 1980 e início da década de 1990, essa hegemonia se consolidou. Os Estados Unidos tiveram o seu “momento unipolar” e a retórica internacional dos americanos, dos europeus e dos seus satélites passou a ser dominada pelo suposto triunfo da “globalização neoliberal”.

Choques que abalaram a hegemonia americana

Biden assume a presidência dos EUA num momento em que seu país vive sob o impacto de uma sucessão de choques que abalaram profundamente a hegemonia americana e a “globalização neoliberal”. Destacaria os seguintes:

1) A ascensão dos países de economia emergente no século 21. A China é o caso mais celebrado, mas não é só ela. Lembro ao leitor brasileiro que até a nossa crise de 2015, ainda não superada, o Brasil figurava destacadamente nesse grupo de países.
2) A crise financeira do Atlântico Norte, no período 2007-2009, que exigiu forte intervenção do Estado – macroeconômica e no sistema financeiro. Essa crise abalou não só as convicções de que o sistema financeiro poderia funcionar com regulação light, mas solapou a confiança do mundo inteiro (ou pelo menos da parte do mundo que pensa um pouco) nas teses econômico-financeiras propagadas por americanos e europeus. O impacto foi tanto maior porque os emergentes, notadamente a China, mas também o Brasil, experimentaram uma crise mais leve em 2008-2009 e uma
recuperação mais rápida do que a maioria das economias do Atlântico Norte.
3) A eleição de Trump e de outros nacionalistas de direita na Europa. Trump é nacionalista como Biden (e como todos os presidentes dos EUA, diga-se de passagem) mas se mostrou frontalmente contrário à “globalização neoliberal”. Mas não o fez de forma inteligente. Rasgou as fantasias retóricas de que se valem sempre os americanos e acabou fragilizando a posição do seu país. Nunca compreendeu o valor da hipocrisia – a hipocrisia que, como dizia La Rochefoucauld, é a homenagem do vício à virtude (frase que eu já citei umas quinhentas vezes).
4) A pandemia de 2020-2021 que, mais uma vez, e agora de forma mais intensa, levou a uma monumental intervenção estabilizadora e antirrecessão do Estado na economia,
pelas vias monetária e fiscal, e no socorro às famílias e empresas mais afetadas.

Em resumo, Biden já assume com a “globalização neoliberal” em frangalhos. O seu plano de governo é uma tentativa de dar resposta a tudo isso. Mas – e aqui vem o fundamental – uma resposta que preserve, ou recupere, a hegemonia americana.

Os EUA enfrentam com a China o maior desafio à sua hegemonia desde a Segunda Guerra Mundial. A União Soviética era um rival político-militar, mas não econômico. O Japão foi um rival econômico, mas não político-militar. A China é as duas coisas ao mesmo tempo.

Não por acaso, Biden, assim como seus antecessores, está focado em fazer face a esse desafio. E, por enquanto, parece prometer mais nesse terreno do que Trump ou Obama.

Força, companheiro Biden!

Compreendo perfeitamente que China e Rússia não vejam com bons olhos o governo Biden. Trump com suas trapalhadas era um adversário provavelmente mais fácil para eles. O caso do Brasil é diferente.
O grande teste político para Biden será chegar às eleições de meio de mandato para o Congresso, em fins de 2022, com resultados a apresentar em termos econômicos e sociais e de política externa, ampliando se possível sua maioria nas duas casas. Em termos macroeconômicos, o desafio será promover crescimento rápido e geração de empregos sem perder o controle da inflação – um desafio não trivial, mas que parece alcançável. Em 2021, parece provável que a economia cresca a taxas “chinesas” com inflação baixa e razoavelmente controlada. A incógnita é o que acontece com a inflação a partir de 2022, tendo em vista a dimensão do impulso fiscal proporcionado em 2020 e, sobretudo, 2021, combinado com política monetária ultraexpansionista.

Uma economia aquecida com criação de empregos e inflação controlada apontaria para um grande sucesso de Biden nos seus dois anos iniciais. Mas se ele vier a perder o controle do Congresso para o Partido Republicano, ainda dominado por Trump, vira rapidamente um lame duck, como foi Obama.

O Brasil, que importou nas eleições de 2018, uma versão, talvez piorada, do modelo Trump, não poderá ver um eventual fracasso de Biden com bons olhos.

 

Uma versão resumida deste artigo foi publicada na revista “Carta Capital” em 14 de maio de 2021. O autor é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido
pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da
vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, começou a circular em
março de 2021. E-mail: [email protected];Twitter: @paulonbjr; Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br; Portal: www.nogueirabatista.com.br
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