Um anticonto de Natal

A notícia do homem largado para morrer hoje, às portas do Centro de Emergência, extensão do Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, é uma espécie de “anticonto” de Natal destes dias hipócritas.

Dois homens engravatados, gorduras sobrando sob os ternos, aparentemente destas “firmas de segurança” que nos protegem sabe-se lá do quê, o despejam de uma cadeira de rodas, no chão sujo.

Bêbado, convulsivo, vomitando.

Vêm-me a lembrança um aluno da escola de Comunicação, períodos acima do meu, nos anos 70. Creio, se a memória ajuda, chamava-se André. Longos cabelos, inofensivo, tinha problemas e vivia bêbado.

Não fazia mal a ninguém, a não ser a si mesmo, com a garrafa de cachaça que carregava numa bolsa, sebenta como ele. Cabelos muito compridos, mais compridos do que os compridos que usávamos então, encimados por um chapéu ou uma boina, não me recordo com exatidão.

Seria um destes personagens que o energúmeno da Educação chamaria de prova da “balbúrdia”. Qual nada, era manso, quieto e sofrido só depois entenderia eu de quê.

Um dia, André, o exagerado, exagerou, foi além da conta. Numa das duas pequenas escadas de pedra que davam acesso à escola – que por sinal foi um hospício, dos tempos de D. Pedro II até as primeiras décadas do século passado – devolvia o álcool e tudo o quanto mais lhe fizera companhia na barriga.

Éramos vários, perto da cena, mas a maioria, por medo ou nojo, foi incapaz de agir. Eu e uns poucos o viramos de lado, para que são se afogasse em suas erupções e o carregamos, como podíamos, para o Hospital Pinel, encravado dentro do campus.

O aspecto do André, a imundície e o cheiro forte do álcool despertaram risadas e deboches de gente bem formada e foram os internos, os “maluquinhos”, que vieram com uma maca providencial, enquanto gente bem posta dizia: “não fazemos emergência”.

De maca, então, atravessamos a Avenida Pasteur, numa insólita procissão, para o Hospital Rocha Maia, defronte, onde os médicos afinal o atenderam, injetaram-lhe o Plasil e outras drogas que, afinal, o fizeram voltar à meia consciência.

Três ou quatro de nós não tínhamos arredado pé vimos,, afinal, chegar o pai, gritando, vociferando indignação, apertando com força os braços flácidos do garoto que o envergonhava.

Nos levantamos e o seguramos. Já não recordo de quem falou: nós cuidamos dele, o senhor consegue cuidar?

Do homem na calçada, que convulsionou até à morte, ninguém conseguiu cuidar, embora sejam todos homens de bem, cidadãos prontos a dizer o que está certo e o que está errado e como todos devem se comportar.

Nunca mais soube do André, muito menos o vi. Nunca importou, nada fizemos porque fosse nos render gratidão, reconhecimento ou menos ainda a graça divina.

Talvez a nós, guris de 20 anos, tenhamos feito mais bem do que a ele, deixando brotar, sem sequer parar para pensar, a solidariedade que nos faz humanos.

É possível que nos falte essa pequena definição, quase a moral da fábula tão verdadeira nestes dias: o que define um ser humano é nunca deixar, indiferente, outro ser humano morrer na calçada.

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18 respostas

  1. Como costumo dizer, o maior sucesso da extrema-direita no processo golpista foi destroçar a solidariedade social. Se ela sempre fora frágil e restrita em alguns estratos sociais, hoje ela foi reduzida a quase zero em uma ampla maioria, sem poupar nenhum segmento. Há classe média alta que despreza a média-baixa, vista como ambiciosos ignaros. Há classe média-baixa que despreza a classe baixa, vista como desqualificados com quem não desejam comparação ou proximidade graças ao discurso “meritocrático”. E há classe baixa que tem horror aos miseráveis graças ao discurso pseudo-religioso da teologia da prosperidade, que hostiliza os desvalidos como “gente que não é de Deus”, suja e incapaz pela própria natureza, apta apenas ao crime. Estes preconceitos foram alimentados pela grande mídia, como instrumento de consolidação da mentalidade excludente, necessária à consumação do golpe. Mas não deixa de ser extremamente triste ver que o esgarçamento social se cristalizou, algo que geralmente demora décadas para ser desfeito. E costuma ter efeitos colaterais bem graves. Repito-me mais uma vez: não se dá poder à extrema direita impunemente. O Brasil apenas começou a descobrir isto…

    1. É o famoso retorno do “darwinismo social”: aquela teoria pela qual só os vencedores na concorrência econômica tem direito à felicidade e a dignidade. Vai daí, a sociedade se transforma numa grande competição, onde não existem amigos, parentes, colegas etc… só CONCORRENTES. E onde no final, todos de uma forma ou de outra, acabam perdendo.Lamentável.

  2. Vale a lembrança. Fiscal do vestibular da UFJF em 1988, um aluno me despertou curiosidade pelos trejeitos que pareceram-me incomodados. Aproximei com cuidado e acabei por aborda-lo. Tremia igual vara verde e ofereci ajuda, ao que respondeu que não conseguia marcar o gabarito. Indaguei de alguma precisão e ele disse que não tinha tomado cachaça antes da prova. Aquilo me enterneceu e chutei o balde, afinal, um gambá cheira o outro, como se diz por aqui em Minas. Peguei a prova dele e marquei no gabarito suas respostas. Quando acabei, ante o olhar estupefato da turma, devolvi a ele e falei que no dia seguinte trouxesse uma garrafinha de pinga para tomar durante a prova como remédio. No dia seguinte ele não apareceu. Uma pena mesmo. A sociedade abstêmia é um veneno e tanto.

  3. Pois eu acho,que a escasses de HUMANOS,ENTRE TODOS NÓS,certamente deve-se principalmente, à forma de sociedade em que vivemos.Eu vivi alguns anos,nos campos do Rio Grande,e posso afirmar,UM REBANHO DE OVINOS,o bixo mais burro e saboro,quando assado que passou e passa por aqui, é muito menos DESINTELIGENTE,que a maioria dos ESCRAVOS VOLUNTÁRIOS ,que chamam CIDADÃO.Nem sei o porque da “ALCUNHA”,pois grande número desse bixo,ainda vive nos campos.

  4. Eu tive um AVC ha um ano e fiquei internado ali por 9 dias e graças a dedicação dos médicos enfermeiros, auxiliares de enfermarem que ainda estavam com salários atrasados, estou vivo! Os Bombeiros levavam muitos moradores de rua e eu não via discriminação! Não condenaremos , isso. Deve ter sido um caso isolado, não acredito que algum medico tenha mandado jogar esse homem na rua! Isso é pratica dos hospitais nos Estados Unidos e não aqui!

  5. Lembrar dos esquecidos já é cuidar, Brito. É muito, mas muito mais que eu ou os vermes no Governo tenhamos feito este ano.

  6. São fatos como esse e outros mais quem têm me feito muito mal. O ser humano, antes de ajudar, quer primeiro julgar, como se fossem perfeitos.
    Essa insensibilidade e hipocrisia muito em alta nos dias de hoje tem afetado e muito a minha vida, e tenho me perguntado até qdo as pessoas “de bem “ vão continuar machucando os demais

  7. Mais um artigo, Brito, digno de compor um livro de crônicas , capaz de retratar com precisão de mestre o momento pelo qual passamos. Meus parabéns!

  8. carÁi ..vc nem escutou ou conhece os que caras que levaram o cidadão até lá, seus motivos ou limitações, e já os esta MALHANDO ..não não, aqui vc errou

  9. Se Jesus fosse contar a Parábola do Bom Samaritano hoje, talvez numa palestra do TedEx rsrs, quem seria o Samaritano? E quem seriam os respeitáveis religiosos a passarem de largo fingindo não ver? Pouca coisa mudou desde então…

  10. “Jorge Portugal” Eu tive um AVC ha um ano e fiquei internado ali por 9 dias e graças a dedicação dos médicos enfermeiros, auxiliares de enfermarem que ainda estavam com salários atrasados, estou vivo! Os Bombeiros levavam muitos moradores de rua e eu não via discriminação! Não condenaremos , isso. Deve ter sido um caso isolado, não acredito que algum medico tenha mandado jogar esse homem na rua! Isso é pratica dos hospitais nos Estados Unidos e não aqui! KKKKKKKKKKKKKK táis brincando?

  11. Em tempos antigos, um sujeito meio hippie contou uma história parecida: de um viajante judeu que foi assaltado e espancado por ladrões. O coitado ficou jogado quase morto à beira da estrada. Passaram vários membros respeitáveis da sociedade judaica pela estrada, viram o conterrâneo naquele estado…mas..sabe como é…tinham mais o que fazer..e continuaram o caminho. Até que apareceu um samaritano (um povinho desclassificado, inimigo dos judeus) e ficou com pena do sujeito…Curou as feridas do viajante, o levou até uma hospedaria e pasmem…ainda deu dinheiro ao hospedeiro para que cuidasse do mesmo. O hippie cabeludo disse que o viajante era o “próximo” e que só iria entrar no tal Reino dos Céus, quem amasse o “próximo”. Lógico que as pessoas cultas da época acharam aquilo um verdadeiro absurdo.

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