A jornalista Helena Chagas dá forma escrita, hoje, ao que todo mundo já entendeu: Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello tornaram-se uma pessoa só, do ponto de vista das responsabilidades pelo que fizeram e fazem no governo.

A defesa, tão ilógica quanto enfática, que Bolsonaro fez de seu general, que aparece num vídeo constrangedor, fazendo o que dizia não fazer na CPI – encontrar-se com empresários para negociar compra de vacinas – é quase tão estúpida quanto o registro, patético, de um ministro reunido com um grupo de “espertos”, um escritório de despaços de transporte de tudo, menos vacinas, e um empresário misterioso, o tal John, que não tem sobrenome e ninguém é capaz de identificar.

Mas não é este o segredo que une, indissoluvelmente, Bolsonaro e Pazuello. É o de que o general, caninamente, foi o executor da ordem de Jair Bolsonaro para que não se comprassem vacinas, para as quais só se iniciou a correria depois que São Paulo colocou a Coronavac como uma faca no pescoço do governo negacionista.

Bolsonaro defende Pazuello porque tem rabo preso com ele

Helena Chagas, n’Os Divergentes

Sabemos todos que Brasília, assim como boa parte das cidades-sede do poder desde a Roma Antiga, é “o paraíso dos lobistas e espertalhões”, como disse Jair Bolsonaro em sua primeira entrevista ao sair do hospital. A questão, para quem governa, é o que fazer com os lobistas e espertalhões. Você não precisa recebê-los no ministério, porque são perceptíveis a quilômetros de distância.

Em recebendo – o que só deveria ser feito com previsão na agenda oficial – , você também não tem˙necessidade de aceitar o que oferecem, muito menos de dar tapinhas nas costas, confraternizar e ainda gravar tudo em vídeo. Ainda que você, ingênuo ministro, só descubra aos 45 minutos do segundo tempo ter entrado numa roubada, a porta do gabinete é a serventia do decoro. Pode dizer que tem um problema ali para resolver e sair da sala – sem, obviamente, dizer no vídeo que acabou de assinar um memorando de entendimentos que não assinou.

Mais uma vez, Pazuello fez tudo errado – ainda que não tenha acertado qualquer propina com os lobistas que tentaram vender a Coronavac pelo triplo do preço do Butantan. Coisa, aliás, que segundo seu chefe só se faz pelado na piscina. O ministro, no mínimo, mentiu e protagonizou uma trapalhada.

O que mais espanta nesta segunda, contudo, já não é mais o comportamento do ex-ministro da Saúde, mas sim o de seu chefe, que mal saiu do leito hospitalar e correu para defender o auxiliar. Nunca antes neste país um presidente saiu em defesa de um ministro acusado de malfeitos com tanta prontidão. Na verdade, o que o manual aconselha é que, por mais querido que seja o auxiliar, o chefe da nação se distancie temporariamente do assunto até as coisas serem esclarecidas. É básico.

Por que então corre Bolsonaro para defender Pazuello com tanta veemência, arriscando-se a aumentar seu desgaste político? Porque, a esta altura, os destinos dos dois estão mais do que ligados, numa espécie de abraço de afogados.

Pazuello “matou no peito” constrangimentos e acusações demais para poupar o chefe – na última vez, para livrá-lo da acusação de prevaricação por nada ter feito diante da denúncia de irregularidades no contrato da Covaxin levadas pelos irmãos Miranda. A explicação oficial, que só pode ser desmentida por uma pessoa, é de que o presidente passou o assunto para o ministro da Saúde , e se alguém não tomou providências, foi ele.

Esse é apenas um dos muitos casos em que o ex-ministro da Saúde, brindado com um novo cargo no Planalto e elogios constantes, na veia, pode enrolar o chefe e seu governo. Basta abrir a boca e deixar de ser o homem-bomba que não estourou. Bolsonaro defende o general Eduardo Pazuello porque tem um tremendo rabo preso com ele.

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