A imprensa ‘livre para não ver’

O ombudsman da Folha, José Henrique Mariante, em sua coluna deste domingo, surpreende-se com a falta de importância que o jornal dá aos perigos de um golpe contra o processo eleitoral, embora isto esteja amplamente exposto por vários dos colunistas que ocupam suas páginas.

É fenômeno que não ocorre apenas com a Folha, no meio na dita “grande imprensa” e basta ver o tratamento desidioso com que se brinda até mesmo o ato de formalização da candidatura de Lula, cuja possível vitória eleitoral sobre o atual presidente é, afinal, o motivo daquele golpismo. No Estadão, então, chega a dar pena: um quadradinho minúsculo, no pé de página.

Não podemos impedir o golpe? Bem, dá pelo menos para contar para as paredes que a virada de mesa está em curso, vai acontecer e que é prudente o cidadão de bem preparar a alma e o bolso para o tsunami que se avizinha. (…).Folha e UOL, por exemplo, desperdiçaram a chance de perguntar nas sabatinas dos pré-candidatos ao governo de São Paulo o que eles farão diante da consumação do golpe e do fato de, quem sabe, estarem eleitos mas impedidos de tomar posse por algum cabo ou soldado.
Na mesma linha, o pessoal da Faria Lima deveria ser indagado se a quartelada já foi precificada e até onde dólar e juros podem chegar após um desarranjo dessa monta. Será que uma XP ainda não projetou o pior cenário? Se algum analista disser que o mercado não trabalha com tal hipótese, basta lembrar que Bolsonaro e seus generais próximos flertam com a tese diariamente.
Será importante também o jornal ouvir parceiros comerciais do país e organismos internacionais sobre a propalada versão tropical da invasão do Capitólio.(…)
A leitora e o leitor talvez ponderem que admitir o receio de um golpe é justamente o jogo que Bolsonaro e aliados querem jogar. A questão, acredito, é que já passamos desse ponto. Bolsonaro se perdeu em campo, mas arrasta muita gente com ele apenas pelas circunstâncias. Não pode mais ser tratado como um risco, mas sim como certeza de dano para as instituições e para o país. Precisa ser contido.
Se alguém não lembra ou não sabe o que é um golpe, civil ou militar, está na hora de desenhar e deixar o tamanho do problema bem claro. Vai dar trabalho, vai atrasar ainda mais o Brasil, vai custar caro.

Que me desculpe o esperançoso colega, não é alienação ou erro do jornal e do jornalismo.

É, apesar de um e outro editorial lido por ninguém, uma envergonhada cumplicidade com o conceito que, há muito, domina a mídia brasileira: o de “contra Lula vale tudo” que, poucos anos atrás, fez com que todos embarcassem na Lava Jato, agora uma farsa desmoralizada.

Pode ser que não haja golpe, por algum rasgo de lucidez que sobreviva na alta oficialidade das Armas, ou pela absoluta falta de condições de fazer-se tamanha ousadia nestes tempos e neste mundo.

Mas a clareza de uma posição de proteção à democracia nos meios de comunicação é parte deste quadro.

E, pelo visto e ao menos por enquanto, os jornais não estão falando sequer para as paredes, mas como elas, impedindo de ouvir o tropel que se avizinha.

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