A verdade aparece e vacinação começa a parar

Nas últimas três semanas andou o país assaltado por uma certa Síndrome de Poliana, ligeiramente modificada porque esta se refere a lembranças do passado, trazendo para a situação atual o mecanismo de reconhecer com mais facilidade o que é agradável e dá segurança do que aquilo é perturbador ou ameaçador.

Quem de nós não vibra e tende a se satisfazer com as imagens comovente de gente bem idosa sendo finalmente vacinada, ou com o esforço dos vacinadores em aplicar doses que, muitas vezes, nem eles próprios tomaram?

Todos sentimos isso, mas tal sentimento não pode fazer com que esqueçamos que remanesce o mesmo problema e que ele se agrava.

Cinco milhões de pessoas receberam ao menos uma dose de vacina e isso representa 2,4% da população. Um pouco mais, 3%, se considerarmos 75% dos brasileiros como elegíveis para a vacinação.

Em três semanas de vacinação, portanto, seriam 100 semanas até completar-se a vacinação de todos, neste ritmo. 22 meses, ou dezembro de 2023.

É claro que se a produção do Butantan seguir em ritmo normal e se a da Fiocruz, onde o fornecimento de insumo farmacêutico ativo mal deu sinais de iniciar-se, o prazo será muito menor, mas ainda assim estaremos muito longe do que anunciou o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que 50% dos brasileiros seriam imunizados no primeiro semestre e 100% até o final do ano.

E tudo porque não estamos nem perto de resolver o problema essencial de falta de vacina para um país que sabe e tem estrutura para vacinar rapidamente. Mas que se conforma com um “racionamento” de vacinas que nos leva a imunizar a um ritmo seis vezes menor do que somos capazes, exercitando uma fragmentação sórdida dos convocados a vacinarem-se como este “cada ano, um dia” do Rio de Janeiro, que deixa grande parte dos 250 postos de vacinação semiociosos.

A realidade está se impondo e, nos próximos dias, não haverá novos vacinados, apenas a aplicação das (insuficientes) doses separadas para a segunda aplicação, cujos prazos começam a vencer amanhã. E boa parte das 600 mil doses que o Butantã se comprometeu a entregar a partir do dia 23 (quantidade para todo o Brasil) terá de ser destinada a repor a quantidade que foi gasta da reserva para a segunda dose e, portanto, não irá toda para novas vacinações.

Fingir que está tudo bem pode ser agradável, confortar a alma e aliviar a ansiedade. Mas não ajuda a criar a pressão de opinião pública sobre um governo – que já está mais que visto – só vai buscar vacina quando apertado, e muito, pelo clamor popular para que se defenda a vida. Muito menos ajuda a fazer o que é necessário: ter uma posição forte no disputadíssimo mercado mundial de imunizantes.

Temos mais de mil mortos por dia e cada um destes “estica para durar” significa gente que está sujeita a adoecer, tanto como o “tudo bem, mas vacina só no ano que vem” representa o sacrifício de milhares de brasileiros, diariamente.

 

 

 

 

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