Abraços de afogado

Na sua coluna de hoje em O Globo, Bernardo Mello Franco compara, com muita propriedade, os ex-bolsonaristas que vão embarcando na canoa de Sérgio Moro, na esperança que ela tenha motor e combustível para avançar contra a reeleição do atual presidente.

De fato, os principais nomes – Santos Cruz e Mandetta, este ainda com um pé só no barco – são os despejados do capitão, bem como seu ex-porta-voz, o também general Rego Barros mas, sobretudo, os métodos são parecidos, senão iguais, aos que o próprio Bolsonaro praticou em 2018, pretendendo cooptar, com adesões, instituições que deveriam estar ostensivamente ausentes da política, como as Forças Armadas.

É provável que episódios assim logo se repitam em outra instituição que deveria estar blindada da política eleitoral: o Judiciário.

Vale a pena a leitura de um dos raríssimos colunistas dos grandes jornais que não está sofrendo da influenza morista.

Moro recolhe náufragos do governo Bolsonaro

Bernardo Mello Franco, em O Globo

Enquanto os tucanos se depenam nas prévias, Sergio Moro tenta avançar sobre as bases do bolsonarismo. A campanha do ex-juiz virou uma espécie de bote salva-vidas. A cada dia recolhe um novo náufrago do governo.

Ontem Moro celebrou a filiação do general Santos Cruz ao Podemos. O militar integrou a primeira leva de ministros de Bolsonaro. Em menos de seis meses, foi enxotado do palácio.

A presidente do Podemos, Renata Abreu, definiu o novo correligionário como um “homem de combate”. “Você representa uma instituição de muita credibilidade no país”, derramou-se. Ela se referia ao Exército, que deveria permanecer afastado da política.

Moro aposta em Santos Cruz para dividir o voto dos militares. Em 2018, a tropa marchou unida com Bolsonaro. Em 2022, o ex-juiz também terá um cabo eleitoral nos quartéis.

Ao receber o general, o presidenciável acusou “governos passados” de tratar os fardados com “viés negativo”. Um recado claro para milhares de oficiais que temem perder cargos e privilégios em caso de derrota do capitão.

Além de polir o próprio currículo, Moro quer reescrever a história de Santos Cruz. Ontem ele disse que o general “não teve nenhum receio de se retirar do governo” quando percebeu que Bolsonaro não estava interessado em “construir um país melhor”.

O discurso soa bonito, mas não se sustenta em fatos. Santos Cruz nunca se retirou: foi retirado. Caiu por obra do vereador Carlos Bolsonaro, que manda e desmanda no governo do pai.

O general estreou no palanque com um desfile de platitudes. “A filiação partidária é um ato político”, disse. “O respeito tem que ser restaurado no Brasil”, prosseguiu. “O sinônimo de educação é esperança”, filosofou.

Em outro momento, ele condenou o extremismo e disse que a eleição não pode ser contaminada por fanatismo e fake news. Em 2018, o general acusou o rival Fernando Haddad de ligações com o fascismo e o nazismo.

Santos Cruz não é o único náufrago a pular no bote de Moro. O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que também sonhava com o Planalto, já se insinua para a vaga de vice do ex-juiz.

Ontem o presidenciável almoçou com o general Rêgo Barros, outro dissidente do bolsonarismo. Ex-porta-voz do governo, ele agora se dedica a redigir artigos com indiretas para o capitão. “Deus te guarde de quem te queira magoar”, escreveu, na quarta-feira.

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