As três letras que Brizola amou viraram um palavrão

Leonel Brizola tinha uma obsessão: conseguir de volta a sigla a sigla PTB, que lhe foi roubada numa armação escandalosa, em 1980, quando o nome do Partido Trabalhista Brasileiro, criado por Getúlio Vargas, foi entregue para sua sobrinha-neta Ivete, numa manobra com datas de protocolo e pendências burocráticas, sob os auspícios de Golbery do Couto e Silva.

Brizola chorou e rasgou um papel onde escrevera “PTB” e fez, com o gesto, o poeta Carlos Drummond de Andrade escrever no Jornal do Brasil: que rasgava “o papel em que estavam escritas as três letras, que ele tanto amava”.

Já era duro para ele, que tinha suas raízes no movimento queremista, ver seu partido entregue a políticos puramente fisiológicos, distante do programa de valorização do trabalho que encarnou por duas décadas, antes da ditadura.

Não foi por acaso, porque bandeira do PTB projetava a sombra gigantesca da morte de Vargas e a sua exortação de que sua memória seria o chamado a que o povo trabalhador não mais fosse escravo de ninguém.

Mas agora, pelas mãos de Roberto Jefferson, felizmente não tem de ver (será?) que “as três letras que ele tanto amava” são entregues a um agrupamento de fascistas belicosos, homens dos gritos, das armas, da escuridão.

Para os mais jovens, que não carregam na memória ou no legado de seus pais e avós o sentido do PTB, imaginem o que seria entregarem, um dia, a sigla PT a Eduardo Bolsonaro, por exemplo.

Restam poucos, pelo tempo, “petebistas”, mas posso calcular a dor que sofrem.

Não sei – talvez advogado algum saiba – resistir a esta usurpação maldita da sigla que encarna a inclusão das massas trabalhadoras na vida nacional.

Mas me ocorre que se pudesse, talvez, invocar as leis de proteção ao patrimônio histórico, que não pode ser depredado, desfigurado e, neste caso, vandalizado.

E que se fizesse, por isso, o que era desejo de Brizola, ciente que, depois de tantos anos, a sigla PTB não era, como está sendo, um valhacouto eleitoral para desclassificados.

Era esta a obsessão: colocar as três letras que amava “numa cristaleira”, um esquife de vidro que conservasse a face da história das lutas sociais do povo brasileiro.

 

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