Cabul, Saigon

Eu ainda era um guri de 16 anos quando assisti as imagens da fuga desesperada de diplomatas e soldados norte-americanos – além, claro, de muitos vietnamitas ligados aos EUA – quando a tomada de Saigon encerrou a Guerra do Vietnã, depois de 20 anos de ocupação militar, primeiro pela França, depois pelos Estados Unidos.

Quase meio século depois, começamos a ver o remake daquelas cenas, agora no Afeganistão.

O desmoronamento, espantosamente mais rápido do que qualquer país previra, do governo montado por 20 anos de ocupação militar norte-americana mostra o quão era artificial o controle que mantinha do país.

E que custou a eles, ao longo destes anos espantosos US$ 1 trilhão, aliás a razão da “retirada” dos EUA

Não se trata de discutir os talibãs. Não se trata de discutir as suas crenças, hábitos e nem mesmo o uso ou não da burka, chocante para a cultura ocidental.

Nada disso foi empecilho quando os próprios EUA financiaram e armaram grupos jihadistas quando lhes interessou demolir a influência e depois a sustentação militar da então União Soviética no país, com o então presidente Babrak Karmal, nos anos setenta, ou antes, depois da derrota ingleses em manter o controle da região como um “tampão” entre a Rússia czarista e as Índias Britânicas .

A questão é saber que ocupações militares e governos montados de fora para dentro em qualquer país têm este desastroso fim e, diante dele, agir para que não haja banhos de sangue em seu desfecho.

Só isso já é extremamente difícil, por séculos de traumas, duas décadas de ocupação e muito dinheiro formando uma elite pró-ocupação.

Há acenos de líderes talibãs de que não pretendem a degola dos derrotados. O porta-voz do que já se pode chamar de governo de fato do país, Suhail Shaheen, deu entrevista na BBC dizendo que não haverá retaliação generalizada nem submissão violenta das mulheres.

Não parece, entretanto, haver nenhuma atitude ocidental de abrir canais que ajudem manter estas promessas. Há, ao contrário, um clima de propaganda feroz contra as forças a que, pela velocidade em que avançam, têm sustentação popular.

Biden torce para que se confirmem as palavras dos chefes talibãs de que esperarão algum tempo (que não vai passar de horas) para completar a ocupação de Cabul, para que a retirada dos norte-americanos não fique igual, igualzinha, àquelas que humilham, há meio século, quase, dos telhados de Saigon.

Ocupação e regimes exercidos pela força militar, mesmo quando gigantescas e sem limites de recursos, como as do EUA, não foram e não são capazes de sobreviver. Muito menos, de desabar sem traumas.

 

 

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