Caso Moro-Bolsonaro é relação mal resolvida

Bolsonaro, afinal, depois de todas as idas e vindas, filiou-se ao PL com suas incansáveis metáforas sexuais, dizendo a Waldemar Costa Neto que “não seremos marido e mulher, mas seremos uma família”.

Deixo aos psicólogos a tarefa de analisar tanto esta estranha obsessão quanto a limitação mental de quem não vai além do grupo familiar na compreensão de coletivos humanos, que se dão em planos e regras muito diferentes dos de uma família.

Fico, apenas, nas relações de mando que ele e seu novo rival, Sérgio Moro, têm entre si.

Moro diz, em seu livro de lamúrias, que Bolsonaro o convidou para o governo dias antes do segundo turno, mas houve um acordo para manter isso em segredo até o desfecho das eleições.

Bem, se ninguém sabia, não seria possível que o prestígio de Moro ajudasse a carrear votos para o novo amigo.

Faria isso, talvez, com a hipótese que o convite, então, pudesse ser uma contrapartida à decisão de moro em publicar a delação (falsa, como reconheceu a Justiça) de Antonio Palocci, uma semana antes do primeiro turno.

Foi o twitter do Villas-Boas em formato judicial.

Nas contas de Bolsonaro, o convite recompensava o juiz e o ministério daria a ele a porta para chegar a uma cadeira no STF. Na coluna do que ficava devendo Moro, Bolsonaro pôs ainda a defesa do seu então ministro quando a Vaza Jato começou a desnudá-lo.

Mas, na cabeça do ex-capitão, Moro teria de vir “para a família”, como Paulo Guedes foi, e isso significa aceitar todas as regras da casa e, ainda, submeter-se incondicionalmente ao “pai” que a proveu.

Vê-se, pelos queixumes de Moro em seu livro, nos trechos divulgados na imprensa, que a ideia do ex-juiz era outra. Entendeu que receberia um feudo, uma jurisdição, onde seria soberano e tomaria decisões inquestionáveis. Foi isso, afinal, o que aprendeu no Judiciário: é o “meu” tribunal, aqui impero eu.

Cedeu naquilo que sabia ser “sagrado” para o miliciano do Planalto: a liberação de armas e o “excludente de ilicitude” ou “licença para matar” para policiais e militares.

Mas decepcionou-se quando não recebeu a contrapartida na questão do linchamento judicial, com a prisão de quem ainda recorre de uma sentença (para Moro, recurso é uma enfadonha formalidade e uma chicana para a impunidade) e amuou-se.

Em seu conforto, teve apenas Luiz Fux, que adiou para as calendas a implantação do juízo de garantias, um freio ao poder absoluto de juízes inquisidores, daqueles que apenas esperam ter com que preencher espaços pontilhados nas sentenças de quem, desde a primeira audiência, está convencido de que deve condenar.

Chegaram, os dois, a um ponto em que lhes sobrou uma relação de amor e ódio muito especial.

Ambos são muito parecidos na essência – e no eleitorado -, embora Jair seja desabrido e Moro, uma ostra.

Ávidos de poder e mando – e com uma noção absolutamente egoísta de seu exercício – querem a morte política um do outro, nunca menos que isso.

Bolsonaro ainda está na fase do “fingir que nem te ligo” para evitar a amplificar a importância do ex-conge político, mas Moro destila ódio mortal a Bolsonaro.

Ainda vamos descobrir muito sobre estas relações, sobretudo na hora em que Bolsonaro – que, nas suas próprias palavras, está de saco cheio – começar a contar o outro lado das intimidades que o ex-juiz traz à luz com suas queixas.

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