Cerqueira Leite: do que não se pode falar e do que não cansaremos de dizer

“O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.”

Não sei se é a este texto do poeta Rainier Maria Rilke a que se refere, em seu artigo de hoje na Folha, o professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite, aos 87 anos um das glórias da ciência nacional, um engenheiro e físico que é “pai” de algumas das mais importantes linhas de pesquisa de física atômica do Brasil e de algumas delas, no mundo.

Se não é, expressam a amargura e a esperança com que a geração dele – e a minha, que já vai pelo outono – gostaríamos de dizer aos jovens do que aprendemos e que já não nos permitem ensinar.

Mas teimamos, como faz o velho professor, em sua comovente

Carta a um jovem brasileiro

Rogério Cezar de Cerqueira Leite

Eu gostaria de escrever-lhe uma carta sobre poesia, embora sem o talento do alemão Rainer Maria Rilke, sobre a importância da literatura, das artes, do conhecimento; enfim, sobre tudo o que enriquece a humanidade. Mas eis que nossos líderes agridem tudo que alicerça a cultura de um povo, tal seja a filosofia, a sociologia, a história.

Eu queria escrever-lhe sobre a dádiva da natureza ao brasileiro, sobre as nossas matas, os nossos rios, a nossa fauna e a nossa rica e bela biodiversidade. Pois bem, nossos dirigentes não apenas corrompem as providências para amenizar as inexoráveis e trágicas consequências do aquecimento global como também incentivam o desmatamento e a poluição da atmosfera.

Eu queria falar-lhe, jovem brasileiro, da dignidade do trabalho e da necessidade de conhecimento para enfrentar a dinâmica implacável do progresso tecnológico. Entretanto, esse novo governo asfixia nossas universidades com cortes de verbas e obtusa perseguição.

Eu queria falar-lhe de ciência e tecnologia, da consequente industrialização do nosso país e dos benefícios sociais e econômicos que adviriam de investimentos em pesquisas. Mas esses nossos governantes continuam a desindustrialização começada nos governos Collor e FHC, cortando recursos para ciência, tecnologia e formação pós-graduada, sem o que não haverá industrialização possível já em futuro próximo.

Eu queria escrever-lhe sobre o valor da cidadania, da liberdade, sobre a decência do homem de bem. Porém, “esses arremedos de déspotas” que presidem sobre esta nação liberam a posse de armas, cooptam e protegem milicianos, homenageiam extorsionários e torturadores, estimulam a violência.

Eu gostaria de poder falar-lhe sobre nosso país, sobre nossa história, nossa arte, nossos escritores, nossa música, nossas conquistas. Mas não posso. Nosso país se curva aos interesses imperialistas dos EUA.

Eu queria falar-lhe do ideal de justiça, da solidariedade. Contudo, só vejo ostentação, narcisismo. Juízes vivendo em palácios “nababescos”, servidos a lagostas, pagas com o suor do trabalhador brasileiro. O que um juiz do Supremo come de lagosta e bebe de vinho importado, diariamente em uma única refeição, equivale ao que come por mês uma família que vive com salário mínimo. E, ao contrário de suas excelências, o cidadão brasileiro paga por suas refeições. Eu pensava em conversarmos sobre seu futuro, seus sonhos. E olho para nossos congressistas, supostos guardiões da cidadania e de seu porvir. E só ostentam escandalosa cupidez.

Confesso que eu queria inculcar-lhe, jovem brasileiro, uma certa compulsão por justiça social, um certo interesse pelo próximo e pelo distante, um pouco de civilidade enfim. Mas seria um esforço perdido, tendo em vista a dominação intelectual e ideológica desse governo por um farsante, obsceno e fascista, uma espécie de Rasputin de bordel.

Eu gostaria de encontrar alguma palavra de alento para apaziguá-lo. Eu não queria ser cínico ou parecer desalentado, derrotado. Seria talvez bom se eu pudesse fingir, mentir um pouco. Mas não. Só posso pedir-lhe que me perdoe, e a todos aqueles das gerações que precederam a sua, pelo que lhe subtraíram e talvez também pelo que lhe ensinaram.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

5 respostas

  1. Ah, mas faltou algo muito importante nessa carta: o Físico e Engenheiro se esqueceu de que para mudar os rumos do País e dar alento à geração do jovem ao qual ele dirige a missiva é preciso tomar o poder. Notem os leitores que o conteúdo dos primeiros três primeiros e no sexto parágrafos, em defesa das artes, da cultura e da ciência, era proferido pelos romanos, quando o império começava ruir, ante a invasão dos povos do norte (germânicos, godos, visigodos, ostrogodos, hunos, etc.), chamados então genericamente de “bárbaros”. O resultado todos sabemos qual foi e desde então o mundo latino-romano foi subjugado e dominado pelo mundo anglo-germânico. Isso deixa claro que, sem a tomada do poder por meio de uma revolução popular, a pobreza, a miséria e a exclusão serão a dura realidade para a maioria dos brasileiros.

  2. Uma observação: quando um juiz consome lagosta e vinho em uma refeição, provavelmente isso custa aos cofres públicos mais que um salário mínimo. Os preços dos ingredientes e do vinho (estrangeiro) devem ser superfaturados e o tamanho da porção servida bem maior que as servidas nos restaurantes franceses.

  3. Fernando, não lembro se o texto que você citou está lá mas a referência do Rogério é a “Carta a um jovem poeta” do Rilke.

  4. Como escreveu abaixo, João de Paiva Andrade, teria sido ainda mais valiosa a missiva, se houvesse a explicação de como mudar o rumo do leme para anunciar um devir socialmente justo

  5. Esta carta deve ter sido dirigida àquele jumento que exultava enquanto outros jumentos arrancavam a faixa em defesa da educação do prédio da UFPR.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.