Em lugar das utopias, a boçalidade

Por mais que se sustente o combate e a certeza de que a noite passa e o sol nascerá, é duro para minha geração ver os tempos de imbecilidade em que mergulhamos.

Pior, muito pior que os da ditadura, embora agora (ao menos, ainda) não estejamos sujeitos a sumir, de repente, para nunca mais sermos vistos.

Agora, tem horas em que a gente quer é sumir para não ver o que as elites dirigentes fizeram a este país.

Hoje, num golpe baixo de Facebook, o colega Luiz Costa Pinto me levou a ver uma homenagem a Milton Nascimento e ouvir o “Coração Civil”:

Quero a utopia, quero tudo e mais/Quero a felicidade nos olhos de um pai/Quero a alegria muita gente feliz/Quero que a justiça reine em meu país/Quero a liberdade, quero o vinho e o pão/Quero ser amizade, quero amor, prazer/Quero nossa cidade sempre ensolarada (…)Se o poeta é o que sonha o que vai ser real/Bom sonhar coisas boas que o homem faz/E esperar pelos frutos no quintal/Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?/Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter/Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida/Eu vou viver bem melhor/Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar

Talvez as pessoas percebam, agora e de forma dolorosa, onde nos leva a intolerância, o escracho, os “padrões fifa” de eficiência, o maldito “eu só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder”.

As máquinas foram feitas para buscarem a eficiência; os seres humanos, para buscarem a felicidade.

Maldito também seja o tempo das verdades absolutas, da moral absoluta, da autoridade absoluta, do “correto” absoluto. Tempo triste em que se festeja a morte, a prisão, a vigilância, a segurança que nos enquadra com blitz e até revista pessoal ao assistir um simples jogo de futebol num estádio.

Até mesmo um sujeito “cuca-fresca” como Miguel Falabella diz que agora “andou tudo para trás” e”vivemos uma idade medieval, com enforcamentos públicos, linchamentos”.

Sinto apenas vergonha que minha profissão tenha sido, em parte, o veículo desta degradação.

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6 respostas

  1. tem horas que dá mesmo vontade de sumir

    e sabemos bem que destruir é rápido e nem carece de esforço
    reconstruir é que são elas

  2. É por conhecer o enredo desse filme de terror,é por vê-lo reprisado que andamos angustiados e é por saber que se fecham as portas teremos,mesmo a contragosto, de arromba-las cedo ou tarde e isso trará dor e sofrimento mas será necessário.

  3. Tive o desprazer de ouvir hoje a miriam leitão.
    No meu entender ela, miriam, é a maior responsável por toda esta desgraça que toma o país. Escondida atrás da falsa etiqueta de “economista” ela fez o que pode para destruir este país. Constante, lutadora, brava, mas sempre falsa e defendendo interesse dos seu patrões da globo.
    Nem o merval, o fhc e outros, claro que eles têm seus papéis importantes na destruição do país, mas a miriam leva o primeiro lugar.

  4. É doloroso, o que li, mas é a pura verdade! E me sinto pior ainda, de ver pessoas da família, ainda achando que está tudo bem, que eu tenho que dar um tempo, pois ele mal começou e que tudo vai ficar bem.

  5. Relendo “O Mal Estar na Civilização” de Freud, cheguei à conclusão que, se ao invés de austríaco dos anos 1920 ele fosse brasileiro dos anos 2020, ele teria de adequar o título de sua obra. E não é pelo mal estar…

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