Fernandes e a “missão impossível” de Bolsonaro

Tinha acabado de escrever o post anterior, sobre a armadilha a que Rodrigo Maia atrai Jair Bolsonaro, instigando-o a sair em defesa da reforma da Previdência nas redes sociais (reparem como Paulo Guedes, esperto, anda calado em público) quando li o artigo de Maria Cristina Fernandes, sempre aguda, no Valor.

É o mais impiedoso e veraz texto que, nos últimos tempos, li sobre as limitações da tão festejada capacidade do ex-capitão em matéria de comunicação de massa. Não, não nego que ela exista, mas estárestrita, como foi na campanha, à repetição radical de chavões do “senso comum”, a tudo o que não demande convencimento, mas simples açulamentos contra o “inimigo”: o esquerdista, o gay, o va-ga-bun-do, o político, o corrupto…

Nenhum discurso que não o de ódio sai bem da boca de Bolsonaro.

Trancrevo um trecho do artigo de Fernandes, na íntegra aqui, para assinantes do Valor.

O presidente da Câmara dos Deputados, principal avalista das expectativas em relação à reforma da Previdência, já devolveu Mateus para quem o pariu. Se ele, Rodrigo Maia, cuida dos deputados, é Jair Bolsonaro quem tem a responsabilidade de convencer os eleitores de que a reforma a ser votada é boa para o país. Sem isso, não haverá maioria a favor no Congresso.

A cobrança para que presidente da República reencarne o garoto-propaganda da campanha eleitoral desafia suas habilidades de comunicador. Até hoje, o titular do Palácio do Planalto foi pedra. No PT, na corrupção, na violência. No papel de vidraça, o presidente decepciona. Monocórdico no tom e enfadonho nas ênfases, perde o elã diante de um teleprompter. É incapaz de demonstrar indignação frente à injustiça dos privilégios previdenciários com a mesma ênfase com a qual chama todos os petistas de ladrões. Comparado com intérpretes de libras que se postam ao seu lado, o presidente dos pronunciamentos é uma múmia falante. Não levanta as  sobrancelhas para armar que quem ganha mais contribuirá com mais e nem sequer esboça um sorriso para dizer àqueles que vão pagar a conta que o futuro prometido é um país com mais empregos.

O presidente da República só parece se sentir à vontade quando encarna o defensor de ditaduras e algoz dos
esquerdistas, aquele que ensinou tudo ao seu trio de filhos. Com seus trejeitos habituais, apertando os lábios,
prendendo a língua e mostrando os dentes num discurso improvisado esta semana, pareceu mais à vontade chamando Alfredo Stroessner de estadista e homem de visão do que explicando aos brasileiros porque o país só sai do buraco se todo mundo trabalhar mais.

Se Bolsonaro não parece convincente em falar daquilo que a reforma tem de bom, que dirá em dobrar os eleitores em relação àquilo que ela tem de ruim. 

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