Gaspari: morte do miliciano está muito mal-explicada

A incredulidade diante da versão de que o ex-capitão Adriano da Nóbrega, tal qual Corisco, quis enfrentar uma “volante” da polícia com dezenas de homens, cercado, na base de sua parabelum Glock é geral.

Hoje, é o veterano Elio Gaspari, com décadas de janela sobre as execuções disfarçadas em tiroteios durante a ditadura, quem desmonta a lógica da versão oficial.

Viramos o país do “manda matar”, talquei?

Conta outra, doutor…

Elio Gaspari, em O Globo

Ganha um fim de semana em Rio das Pedras quem conseguir montar um cenário plausível para a seguinte situação:

Setenta policiais participam de uma operação para a captura do “Capitão Adriano”, foragido desde o ano passado. Suspeitando que ele se escondeu na chácara do vereador Gilsinho de Dedé (PSL), alguns deles formam um triângulo e cercam a casa. Tratava-se de uma área rural, sem vizinhos.

Segundo a versão da polícia baiana, ratificada pelo governador Wilson Witzel (Harvard Fake ‘15), “chegamos ao local do crime para prender mas, infelizmente, o bandido (Medalha Tiradentes ‘05) que ali estava não quis se entregar, trocou tiros com a polícia e infelizmente faleceu”.

Conta outra, doutor. Ou, pelo menos, conta essa direito. Adriano da Nóbrega estava cercado. O bordão “trocou tiros” é um recurso gasto. Antes da chegada da polícia, o miliciano já fugira da casa onde estava com a família, na Costa do Sauípe, e do esconderijo onde se abrigara, numa fazenda próxima à chácara.

Os policiais podiam ficar a quilômetros da casa e o bandido poderia atirar o quanto quisesse, mas continuaria cercado. Se a intenção fosse capturá-lo vivo, isso seria apenas uma questão de tempo. Três dias depois da operação, as informações divulgadas pelas polícias foram genéricas e insuficientes para entender o que aconteceu.

Na melhor da hipóteses, os policiais foram incompetentes. Na pior, prevaleceu o protocolo de silêncio seguido pelo ex-PM Fabrício Queiroz, chevalier servant da família Bolsonaro e administrador da “rachadinha” de seus gabinetes parlamentares, onde estiveram aninhadas a mãe e a mulher de Adriano. O silêncio de Queiroz é voluntário, o do miliciano foi inevitável. Fica no ar um trecho da fala triunfalista de Witzel, no qual ele disse que a operação “obteve o resultado que se esperava”.

Quando a polícia estava no rastro de Adriano, o ministro Sergio Moro vangloriou-se de ter organizado uma lista dos criminosos mais procurados. Nela estavam 27 bandidos, mas faltava o “Capitão Adriano”. No melhor burocratês, o ministério explicou: “As acusações contra ele não possuem caráter interestadual, requisito essencial para figurar no banco de criminosos de caráter nacional”. Conta outra, doutor. Dois dos listados eram milicianos municipais do Rio de Janeiro. Ademais, a interestadualidade de Adriano foi comprovada na cena de sua morte, com policiais baianos e fluminenses.

O secretário de Segurança do governo petista da Bahia prometeu transparência na investigação da morte do miliciano. Seria uma pena se a cena do tiroteio tiver sido alterada. Numa troca de tiros deveriam existir cápsulas da arma de Adriano. Seria razoável supor que a polícia disparou mais tiros, além dos dois que atingiram o bandido. A cena poderia ter sido filmada, mas isso seria pedir demais, mesmo sabendo-se que se tratava de uma operação de relevância nacional. A captura de Adriano lustraria a polícia e jogaria luz sobre suas conexões. A morte do ex-capitão serviu apenas para aumentar as trevas que protegem essa banda das milícias do Rio.

Faz tempo, uma patrulha do Exército perseguiu outro ex-militar foragido pelo interior da Bahia. Chamava-se Carlos Lamarca. Apesar de ter teatralizado a cena de sua morte, o oficial que comandava a patrulha não falou em troca de tiros. Narrou uma execução.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

16 respostas

  1. É mais um que aponta para os outros com o dedo sujo. Nenhum empregado dos barões da mídia tem o direito de abrir a boca para “denunciar”, reclamar ou criticar o que está acontecendo. Todos, inclusive os que posaram de isentões, tem culpa pela atual situação a que chegamos porque não denunciaram de maneira firme o que estava por vir. É chamar todo o público de idiota querer que alguém acredite que jornalistas experientes não soubessem de tudo que envolvia o atual grupo que chegou ao poder. Então eu quero que toda esta gente, começando pelo tal reinaldo azevedo, que vá para o raio que os parta.

        1. Concordo com as críticas merecidas aos escribas relatados, entretanto, o governo baiano é petista, isso é inalienável, principalmente para um eleitor que vota preferencialmente na sigla. Não podemos esquecer que numa execução de um menino negro pela polícia na Cabula, o Gov. Rui Costa comparou o matador a um “artilheiro na área”. Quando o PT, principalmente, ou Psol, PCdoB, PSB, PDT, não faz a diferença na qual eu voto, a crítica, publicada ou não, é automática.

  2. Já foram noticiadas as sondagens do MP e PC do Rio com o Ministério da Justiça e a PF de Moro para que os federais participassem da operação de assassinato da testemunha-bomba contra os Bolsonaro, o capitão amigo de Jair Bolsonaro e sua família, e que a PF não participou porque não houve formalização do pedido. Bem, isto fez os agentes estadunidenses que participaram informalmente da operação lavajateira darem muitas risadas, mas essa é outra história..

    Ou seja, deram conhecimento antecipado ao maior interessado em calar a boca do miliciano, Jair Bolsonaro, através da PF do seu MJ, Sérgio Moro, da operação para liquidar o parceiro de longa data da família presidencial. E aí, de repente, Sergio Moro publica uma lista dos criminosos mais procurados, SEM o nome do bandido capitão Adriano, o amigo querido e tão homenageado dos Bolsonaros..A lista de Moro transmitiu ao bandido a certeza de que estava protegido pelos amigos lá em cima, e, mais ainda se algum emissário lhe confirmou que era isso mesmo. Não sabia que se tratava de uma arapuca para matá-lo. Lista publicada no dia 30/jan. Na bucha, apenas 3 dias após, a primeira tentativa de assassinato, no domingo, 02/fev. Sete dias depois, no domingo, 09/fev, o assassinato.

    Depois disso, há quem diga que não houve participação do governo Bolsonaro no assassinato. Brincadeira.

  3. O artigo do Gaspari tem um tom de conformação diante de um final catastrófico de novela de ruim. Não ppode haver conformação. Claro que há mil pontas soltas neste novelo mal enrolado, e a obrigação de jornalista é não só exigir que as autoridades reconheçam cada um deles, como também pegar o novelo por conta própria e tentar desenrolá-lo.

  4. Olha, indiferente de governo ser petista ( oposição) qual o governo que manda na polícia

  5. Lembrou bem o Gaspari: a ação poderia, deveria, ser gravada. Isso é muito comum. Policial responsável deveria sempre fazer isso, inclusive para sua proteção. Nos EUA se verifica viaturas com filmagem automática. Nas ações da PF por vezes se percebe um agente fazendo filmagens.

  6. Digo e repito ..RUI COSTA precisa explicar isso ou ser EXPULSO DO PT ..e o secretário e policiais envolvidos no comando e execução, no mínimo, DEMITIDOS, pra não dizer, por ora, PRESOS

  7. Pra entornar o caldo:

    G1

    A Justiça do Rio proibiu nesta quarta-feira (12) a cremação do corpo do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega. O pedido de cremação havia sido feito pela família do ex-policial. A cerimônia estava prevista para as 10h desta quarta no Crematório do Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Portuária do Rio.

    Em sua decisão, a juíza do plantão judiciário, Maria Izabel Pena Pieranti, diz que “que não se encontram preenchidos os requisitos previstos na Lei de Registros Públicos (lei 6.075/1973)”. Segundo a juíza, não constam no pedido documentos imprescindíveis para a cremação, como a cópia da Guia de Remoção de Cadáver e o Registro de Ocorrência.

    A juíza reitera, ainda, que Adriano não morreu de causas naturais e que, segundo consta em sua certidão de óbito, ele sofreu anemia aguda e politraumatismo causados por instrumento perfuro-cortante.

    Por Arthur Guimarães, Leslie Leitão e Marco Antônio Martins, TV Globo e G1 Rio
    12/02/2020 11h30 Atualizado há 20 minutos

    instrumento perfuro-cortante??? what??? não tenho conhecimento nessa área.
    instrumento perfuro-cortante é projétil de arma de fogo? bala?

  8. Uma coisa que não bate bem – sem lógica – é o interesse do witzel na execução do miliciano, já que esta seria de interesse da família Bolsonaro.

  9. Tem um negócio que não me sai da cabeça. Alguém pode me explicar por gentileza? Primeiro: na ação na qual esse cidadão foi morto, qual das polícias estava no comando? A carioca ou a baiana?
    Segundo: com o cidadão completamente cercado e não tendo para aonde fugir, captura-lo vivo seria apenas uma questão de tempo.
    Terceiro: qual o interesse da polícia baiana na morte do miliciano? Sendo que esta está sob comando petista, e portanto, seria muito mais útil ele vivo do que morto.
    A coisa tá estranha….

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.