Merval, após FHC, quer Huck. Pode ser, mas no lugar do Faustão

Nelson Rodrigues e suas cruéis observações sobre o masoquismo não são das coisas mais politicamente corretas, mas parecem encaixar-se como luva aos movimentos que ocorrem dentro dentro do alto tucanato (aquele que exerce o papel de retrato na parede do partido controlado por João Doria) para assoprar as cada vez mais fracas ambições presidenciais de Luciano Huck.

Hoje, em O Globo, Merval Pereira, o imediato de Fernando Henrique Cardoso, repete o canto do ex-presidente da República para os ouvidos do apresentador de TV.

Huck tem acesso ao eleitorado nordestino, o que lhe coloca à frente de outros candidatos do mesmo grupo, como João Doria. Mas é o que bolsonaristas consideram “adepto de uma agenda identitária de esquerda”, um liberal-progressista que não seria bem aceito pelos liberais-conservadores e conservadores. Pode transformar-se na alternativa à polarização entre PT e Bolsonaro. Mais palatável para eleitores liberais do que Ciro Gomes, que também disputa, desde 2018, esse espectro da centro-esquerda.

Merval, que ocupa hoje no jornalismo global uma posição semelhante à de seu guru tucano, do alto do prego televisivo de onde eventualmente gagueja suas pretensas “verdades”, ainda está enxergando “liberais” e “liberais-conservadores” num debate político que é cada vez mais raso e gerido pelos ódios. Ódios como, aliás, eles não conseguem se livrar de uma centro-esquerda que o PSDB jamais conseguiu ser.

O partido, que nasceu com pretensões socialdemocratas, as deixou de lado quase desde seu ninho original, quando Mario Covas, nas eleições de 1989, saiu-se com a história de que o Brasil precisava de um “choque de capitalismo”.

O partido deu-nos, ao revés, um “capitalismo chocante”, onde grande parte do patrimônio nacional esvaiu-se, os juros foram à estratosfera e o endividamento, sempre perverso, alcançou níveis apavorantes.

Agora, desmoralizado, desgastado, sem credibilidade popular e com os quadros medíocres que produziu, quer apelar ao truque de prestidigitação de trazer Luciano Huck à cena – como fez, em escala menor, cinco anos atrás com o próprio Doria, importado do mundo dos cashmères e dos kennel clubs para a prefeitura paulistana.

Nada contra a carreira esperta do televisivo, desde os chicotes da Tiazinha até os caminhões de prêmios, mas mesmo nos seus auditórios é preciso que animadores “puxem” o aplauso da claque. Os partidos não o farão e nem é possível, salvo mediante paga, que haja hucketes a agitar as ruas, como sucessores dos bolsominions.

Achar que o povo brasileiro, ao menos o que não se mantiver ainda preso na arapuca em que fomos presos de ter um aventureiro como governante para outra, onde outro aventureiro, que não dirigiu senão sua trupe de produtores, vá comandar este país.

Doria pouco se importa com a voz de FHC ou a de Merval Pereira e o quadro sucessório hoje mostra Huck, sim, como forte candidato, mas não a suceder Bolsonaro no Planalto, mas a Faustão, nas tardes de domingo da Globo.

 

 

 

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