O barulho da passeata dos preços

Nos anos 60 e 70, era corrente o chiste de perguntar por que o Brasil, sempre à beira do abismo, não caía nele. A resposta era simples: porque não cabe nele.

Talvez se devesse dizer que o abismo é não é um penhasco, mas uma rampa pela qual o país desliza e tende a continuar deslizando até que mude seu ânimo, suas atitudes e as políticas que o fazem escavar mais ainda abaixo de si o que deveria ser seu ponto de apoio para reerguer-se e e voltar a escalar terra acima.

Nem tão metaforicamente assim, de onde se tira a pretexto de enfrentar crise? Dos de baixo, arrochando salários, degradando vidas, largando outras tantas numa miséria que não é possível cercar e esconder nos nossos guetos, numa austeridade fundamentalista que se choca com qualquer proposta que não seja a do cortar e cortar mais de uma população que vai já largando seus pedaços necrosados pelas calçadas cheias de pedintes, sobretudo onde ainda há algum dinheiro que se possa pedir ou que se apiede das crianças vendendo doces.

“O dólar está alto porque há muito barulho político”, diz o quase extinto ministro da Economia, Paulo Guedes. Não, o dólar está alto porque é um termômetro da insegurança política e econômica em que vive o país, não só pela ação de Guedes e de seu chefe como pelo fato de, em três anos de poderes quase absolutos – inclusive descendo goela abaixo dos trabalhadores uma garfada previdenciária que governo algum teve liberdade para fazer – não deram ao país qualquer rumo econômico.

Era possível, mesmo com a pandemia? A pergunta se responde com o exemplo de 2008, quando a grande crise provocou quedas idênticas nos mercados, mas não nos impediu de avançar e crescer. De como isso foi arruinado pelo medo de fugir da cartilha, de cortar seletivamente as benesses dadas ao mercado e, sobretudo, pela sanha lavajatista que jogou fora investimentos junto com a água suja de corrupções é outra história.

A idolatria do “teto de gastos” – vejam como os jornais já falam da heresia que seria o seu rompimento num eventual governo Lula – é, como toda idolatria, hipócrita.

Quando se trata da “pedalada” dos precatórios, argumenta-se que o Orçamento do país não pode ser inutilizado pelo pagamento de dívidas, embora o possa ser para o pagamento de juros, que voltam a subir e nem mesmo resolvem o crescimento da inflação, o que é , em tese, a sua razão, embora segurar a cotação do dólar seja outra, tão ou mais importante.

A verdade é que não há, neste governo, nenhum projeto senão o do “barulho políticos”. De resto, só trechos de asfalto de Tarcísio de Freitas, o mini-Andreazza de Bolsonaro e a conclusão de obras que vinham desde o governo Dilma.

Não há mais tempo – e nunca houve vontade – de ser diferente disso. De progresso, que cuide “o mercado”.

O resultado é que Bolsonaro tem hoje como ácido a corroer o que lhe resta de apoio uma passeata muito maior que a que se poderia ver nos atos de oposição.

A passeata dos preços nos supermercados não precisa de discursos, de propostas, de palanques.

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