O vício de atirar pelas costas

Há um problema de caráter nas atitudes de Jair Bolsonaro que é, no final das contas, a única coisa que, nele, não se sujeita ao marketing.

Bolsonaro não admite nada que não seja a sua própria vontade e, quando é forçado a contrariá-la, como neste episódio da demissão de Gustavo Bebianno, faz questão de mostrar que está fazendo o minimo minimorum que o cargo – e a manutenção dele – o exigem.

O vídeo onde faz, ainda que forçados e num tom escancaradamente burocráticos, elogios ao Gustavo Bebianno foi distribuído aos jornalistas, mas não publicado nas redes sociais do Presidente.

Não saíram, portanto, nos novos “diários oficiais”  de seu fanáticos seguidores.

Aliás, nem se referiu expressamente à demissão, limitando-se a reproduzir seu porta-voz num vídeo onde só aos 3 minutos referiu-se a ela, respondendo perguntas dos jornalistas. E sob o anódino título de “Porta-voz da Presidência da República expõe como foi a agenda do Governo no dia de hoje (18/02/2019)”.

Pensa ter cumprido, assim, “na conta do chá”, a exigência de seu ex-auxiliar.

Quem conhece o comportamento humano sabe o quanto são inúteis as ofensas em público e elogios “em particular”, neste caso por serem feitos fora do “mundo virtual ” de seus áulicos.

O editorial de hoje do Estadão, até agora o veículo que lhe era mais generoso, diz tudo, a partir do título “Muito ajuda quem não atrapalha”.

Desnorteado, governando ao sabor da gritaria nas redes sociais, o presidente deixou de construir uma articulação organizada no Congresso.(…)Bolsonaro parece convencido da necessidade de uma profunda reforma na Previdência, dado que passou a vida inteira como parlamentar a boicotar mudanças nas aposentadorias.
Seria ingênuo acreditar que Bolsonaro, de uma hora para outra, passará a se comportar como presidente e assumirá as responsabilidades de governo. Mais realista é torcer para que ele, pelo menos, pare de atrapalhar.

O tom é este entre todos ou quase todos os comentaristas conservadores. Até Merval Pereira se mostra desconsolado.

De Bolsonaro, como de Michel Temer, espera-se apenas que faça, sem muita “marola” o serviço sujo do arrocho. Logo que o fizer ou caso se prove incapaz de fazê-lo, seu fim só não será o mesmo que aquele que teve seu antecessor porque será pior, muito pior para ele e para o país.

 

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