Plano de Guedes só é possível sob uma ditadura

A leitura dos comentaristas de política e de economia tem, com mais ou menos ênfase, uma unanimidade: exceto por pedaços “selecionados” as propostas contidas no pacote de emendas constitucionais apresentado ontem por Paulo Guedes – Jair Bolsonaro não parece ter noção exata do que se propõe e logo se verá, nas primeiras reações, como lançará ao mar pedaços do plano.

O mais provável é que se cuide, apenas e com modificações, da “emergência fiscal”, versão revista e ampliada da “PEC do Teto”, descrita, na entrevista que deu à Folha na segunda-feira com um simplório ato de “apertar um botão que trava a despesa e chove receita”. Nem a despesa se pode travar com um botão, ao menos sem graves consequências para a máquina pública, nem receita cai do céu sem aumento da atividade econômica (e leva tempo) ou aumento de impostos, fatal para uma economia exangue.

Há, no projeto, coisas que misturam lenda e desastre. A história dos fundos que se vai extinguir tem de ambos.

Será que alguém acha que há maços e maços de notas de R$ 100 reais guardados em caixinhas, somando os R$ 200 e tantos bilhões que se vai “destravar”. Esta conta é escritural, é óbvio e o dinheiro gira. Ao que parece a ideia é desvincular da receita da União os aportes obrigatórios e, na ponta dos recursos havidos, desvincular o uso em projetos de fomento hoje obrigatórios.

Sim, porque não se tem falado no sobrenome completo destes fundos: fundos constitucionais de financiamento. Embora estes não estejam alcançados na proposta do governo, os fundos criados por leis complementares seguem a mesma dinâmica.

Da lenda, ao desastre: a depender de como será praticado o “destravamento”, corta-se o fluxo de financiamento dos investimentos, que tem caráter pró-cíclico (mais atividade, mais receita, mais aportes nos fundos, mais crédito) e abre-se a porteira para que isso seja destinado à máquina de enxugar gelo da redução da dívida pública.

Ou seja, estes recursos não serão lançados no financiamento da economia produtiva. O caso mais gritante é o Fundo de Amparo do Trabalhador, o FAT, que vai tirar R$ 20 bilhões da disponibilidade de crédito do BNDES.

A redução do número de municípios, é a visão geral, entrou no projeto apenas para sair dele e a redução em 25% da remuneração dos servidores públicos – da qual, nem é preciso falar, excluir-se-ão as categorias “bacanas” (juízes, promotores, militares, policiais parlamentares, auditores, etc) – será mais uma fonte de conflitos e precarização ainda maior dos serviços públicos de ponta do que uma solução para as folhas de pagamento insustentáveis.

Há muito mais coisas no pacotão para digerir, mas fico nisso, por enquanto.

O fato concreto é que as medidas seguem no sentido do arrocho e da recessão e só não serão uma imprudente guinada nas regras da economia porque, provavelmente, vão arrastar-se no Congresso. Adotadas, são um convite para que o país chegue de fato ao modelo chileno, mas este que ganha as ruas de Santiago, não o dos Chigago Boys – entre eles o próprio Guedes que fundaram a reforma pinochetiana por lá.

Que nasceu com um ditadura, lembrem-se, e contorce-se de morte na democracia.

 

 

 

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22 respostas

  1. África vem aí,com um única diferença,lá volta e meia fazem uma revolução.
    Aqui somos “pacifistas” ,vulgo —covardes——.
    Já sobre o plano ele tem uma função didática importante,(e obviamente a um preço muito cruel ) os IMBECIS aqueles que não entra nem um prego em suas cabeças vazías,aprenderão pela fome,miséria,falta de escola,doença e morte .
    Em fim,vivendo e aprendendo ou desaparecendo

  2. Perderam a mão. O projeto é ambicioso demais, querem mesmo comer demais e poderão ter uma bruta indigestão.

    Enquanto isso, Alberto Fernandez foi ao México, não para armar uma frente de esquerda, como querem dizer, mas com intenções estritamente econômicas: Podem dar adeus ao mercado de automóveis que o Brasil ainda tem no exterior. O Brasil corre o risco de ficar como o Chile: Sem ter sequer uma fábrica de pregos.

    1. AMBICIOSO para o mal, né caro companheiro ?
      O BOLSOBOSTA e a TCHUTCHUCA enlouqueceram de vez.

      1. “A nossa piscina nunca esteve tão cheia de ratos (‘SUJO mor(T)o’, DIABOzo, *paulo JEGUES…)
        (…)
        O golpe vagabundíssimo dos canalhas de 2016 transformou ainda mais o Brasil num puteiro para estes bandidos ganharem mais dinheiro.”
        Adaptado do gênio – e profeta – Cazuza

        *”o primata do neolibelês”, segundo o saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim

    2. Passamos de uma proposta de Estado Mínimo para uma pior ainda: o Estado Mínimo Canibal. Por que canibal? Porque as próprias medidas de austeridade (teto de gastos, regra de ouro e superávit primário) levam a uma menor arrecadação, ao investir menos e tratar ações de investimento em saúde e educação como gastos. E agora, como numa profecia auto-realizadora, o próprio Estado permite que se punam os serviços públicos com cortes de serviços e de remunerações, por ter uma relação deficitária causada por ele mesmo ao contribuir para diminuir o denominador da arrecadação, pensando apenas no numerador das despesas, o que se constituirá numa bola de neve ou círculo vicioso a confirmar o desastre auto sentenciado. O Estado se boicotando é o ESTADO MÍNIMO CANIBAL.

      1. E para completar, poderemos perder nosso mercado argentino de automóveis para o México. De que sobreviverá nossa indústria automobilística?

      2. E para completar, poderemos perder nosso mercado argentino de automóveis para o México. De que sobreviverá nossa indústria automobilística?

  3. Os meliantes chegaram e estão escarificando o solo pátrio de modo a facilitar a repinagem dos abutres.

    Os abutres e a CIA estão felizes, em estado de graça.

    Estão execercendo poder conferido por 57milhões de votos obtidos entre, desavisados, omissos, irreponsáveis e canhalhas entreguistas endinheirados!

  4. ENTREVISTA IMPERDÍVEL!
    Vamos divulgar, pelo amor de Deus!
    Saiba também que o bandido *”primata do neolibelês” é réu em crimes financeiros!
    *paulo guedes, segundo o saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim

    ***

    Pacote econômico de Bolsonaro confirma que governo é o Robin Hood ao contrário
    Joaquim de Carvalho e Pedro Zambarda entrevistam a doutora Maria Lúcia Fattorelli, coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida
    https://www.youtube.com/watch?v=HwQ1UlVJ_NQ

  5. O roteiro do que está acontecendo no Brasil foi bem descrito por uma escritora canadense. O livro se chama “A doutrina do choque” e mostra isso que o Fernando Brito retratou no título. As teorias dos Chicago Boys acabaram sendo adotadas em diversos países sempre em condições de choque (ditadura, guerras, catástrofes naturais, crises econômicas, etc..). Jamais uma democracia sólida abraçou esse mantra do deus mercado como uma solução para uma nação. Vale a pena ler esse livro ou ver o documentário produzido a partir dele.

  6. África vem aí,com um única diferença,lá volta e meia fazem uma revolução.
    Aqui somos “pacifistas” ,vulgo —covardes——.
    Já sobre o plano ele tem uma função didática importante,(e obviamente a um preço muito cruel ) os IMBECIS aqueles que não entra nem um prego em suas cabeças vazías,aprenderão pela fome,miséria,falta de escola,doença e morte .
    Em fim,vivendo e aprendendo ou desaparecendo

  7. Só é possível na banania. Votei 2 vezes fhc me arrependi. Votei 2 vezes no Lula pra ir pra cima da Globo e nada, 2 vezes na Dilma e ela mandou eu me virar com o controle remoto. Cambada de bunda mole. Vtnc.

  8. Correto Brito, a agenda econômica das forças golpistas somente consegue impor-se através do fascismo, que não só é uma alternativa à qual as elites não tem objeções como é uma necessidade para elas.
    Não é por outra razão que fazem de um medíocre pinochetista como guedes seu “gestor” da economia e de fascista scomo bozo e moro seus agentes políticos.

  9. Brito,
    Acho você que está esquecendo de um pequeno detalhe: os parlamentares são movidos a dinheiro, e as notícias já dão conta de que o governo federal liberará sete bilhões em emendas parlamentares. Agora, vamos torcer para que esses deputados tenham juízo e não caim mais uma vez nessa tentação.

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