Pule de dez

Ontem à noite, já tarde, escrevi o post Os jornais que você não verá, praticando a sempre arriscada adivinhação do que seria – ou não seria – manchete nos jornais de hoje.

Seria arriscado, mas não é. E, de fato, não vieram as manchetes sobre a inconcebível ameaça presidencial a um jornalista que fez a pergunta que, afinal, está na boca de muita gente: afinal, por que Fabrício Queiroz depositou R$ 89 mil na conta de Michelle Bolsonaro?

Chamadas miúdas, para “honra da companhia”, um pouco maior em O Globo, casa do jornalista ameaçado, só mais destacada por conta da charge de Chico Caruso.

Pode-se argumentar que os rompantes agressivos do presidente que grita “acabou, porra!” já são conhecidos e, portanto, não merecem tal destaque.

A verdade é que há muito tempo ou talvez nunca tenham merecido, desde que Jair Bolsonaro se tornou uma ferramenta útil, necessária mesmo, para fazer o que era, há mais de uma década, a “missão impossível” de derrotar/derrubar um governo de centro-esquerda, ainda que não hostil, ao capital financeiro e ao restante do capitalismo que dele, como os jornais, se tornou caudatário.

Tão repetitivos ao exigir “autocríticas” à esquerda, negam-se a fazer a sua -e mais premente – em ter apoiado o desmonte da pouca institucionalidade de que o Brasil gozava nas últimas décadas e que nos levou a passar a viver um torvelinho de atropelos, improvisos, brutalidade e, afinal, estagnação.

Não quisessem fugir do velho ditado das redações de que “jornalista não é notícia” – quem vê o jornalismo de “especialistas” que praticam sabe que o deixaram faz muito tempo – houve tempo para elaborar aquilo que sempre é notícia quando se trata de críticas feitas ao comportamento dos meios de comunicação: a liberdade de imprensa.

Como Jair Bolsonaro não dá entrevistas, apenas fala o que quer, preferencialmente no meio de seus adoradores, fazer a pergunta que dá “vontade de te encher a boca de porrada” é, agora, oficialmente, um chamamento à agressão do profissional que se atreva a fazê-la.

Está, portanto, proibida.

E nossos grandes jornais cumpriram candidamente a ordem.

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