Quando a coisa piora, ressuscitam a “retomada”

“Tá ruim, mas vai ficar bom”.

Esse é o resumo da “análise crítica” de nossos economistas e jornalistas diante de uma tendência que o leitor deste blog já conhece, de tanto tempo e tantas vezes de que falo disso aqui.

Repare a contradição. Você ouve, desde o impeachment, que há uma enxurrada de dólares que só esperava a queda do governo Dilma para entrar no país.

Depois, com Michel Temer ela ameaçou, mas não veio: faltava, segundo eles, a reforma da previdência e um governo que contasse com estabilidade política, e o caso JBS deixou o presidente golpista à beira de um novo impedimento.

A seguir, veio a eleição de Bolsonaro, o alinhamento incondicional aos EUA e, então, era só esperar o “agora vai” previdenciário. E ele veio, mas os dólares, não. Nem para chupar de canudinho o petróleo fácil do pré-sal.

Agora o Valor publica a “novidade” de que há uma saída de dólares – e recorde – do Brasil.

Mas, claro, com a ressalva de que “para o próximo ano, as perspectivas são mais animadoras e debandada não deve se repetir”.

Diria o Renato Aragão: “cuma?”

A torcida do Flamengo e os “secadores” do Flamengo sabem que a bolsa está no nível recorde em que está pelo deslocamento para lá das aplicações de renda fixa. Sabem-no até os que não estão nestes dois grupos: os gringos, que não param de tirar dinheiro de lá. Em junho deste ano, a saída de capitais estrangeiros da Bovespa era de algo como R$ 5 milhões em todo um semestre. Agora se aproxima de R$ 35 bilhões.

Precisa mais para sinalizar que pressentem o perigo?

O que sai do mercado financeiro anula totalmente o saldo (minguante) de nossa balança comercial e o investimento estrangeiro direto – também decrescente – produz uma soma negativa que já é a pior de nossa história. Até 1º de outubro, a saída líquida de dólares pelo canal financeiro foi de US$ 35,560 bilhões e vai piorar em novembro e dezembro.

Um abalo – que ninguém exclui do horizonte – lança essa conta precária no desastre.

Entre manadas e autoproclamados gênios, eles dizem que é a crise mundial – alguém avise à Bolsa de Nova York para não estar num imprudente nível recorde – e o fato de terem soltado Lula os responsáveis por esta fuga de capitais.

Isso não quer dizer que estejamos na beirada de um precipício, até porque a gordura das reservas cambiais (acumuladas basicamente no período Lula) nos dá certa folga.

Mas é praticamente uma garantia que a tão repetida “retomada da economia”, à parte os voos de galinha pontuais das liberações de FGTS, não sairá das telas de portais e páginas de jornais, nem tão cedo.

Não pensem que foi por falta de tema que Lula centrou seu discurso, ontem, em Recife.

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17 respostas

  1. Houve um tempo em que essa onda de “tá ruim, mas vai ficar bom” terminou com o FMI governando o país e uma leva de “economistas” correndo rumo ao aeroporto. Tava mesmo muito ruim, e só ficou de fato bom quando o PT assumiu o governo. Agora vai ser do mesmo jeito. A história vai se repetir, sobre as cinzas de mais uma farsa “neoliberal”.

    1. Ótimo. É preciso isso mesmo. Ter memória. Registrar tudo o que der e esfregar na cara desses mínions.

  2. Esse gráfico diz muita coisa, quando se um tem um governo sério e compromissado com país, o dólar entra com aumento do investimento, no gráfico, Lula e Dilma. Qdo saqueadores e algozes do povo assumem o poder o dólar sai, no gráfico, FHC/Temer/Bozo.

  3. Houve um tempo em que essa onda de “tá ruim, mas vai ficar bom” terminou com o FMI governando o país e uma leva de “economistas” correndo rumo ao aeroporto. Ficou lá por Brasília só o Malan, que ainda teve peito de tentar aconselhar o Lula. Tava mesmo muito ruim, e só ficou de fato bom quando o PT assumiu o governo. Agora vai ser do mesmo jeito, só que bem pior, porque o que perderam em inteligência ganharam em grossura e estupidez. A história vai se repetir, sobre as cinzas de mais uma farsa “neoliberal”.

  4. Alguns podem pensar em ciclotimia, outros em pura ignorância; alguns podem pensar em fanatismo ideológico, outros em pura picaretagem; alguns podem pensar em pensamento positivo, outros diriam que a única coisa em que de fato estão pensando é no “bonus” do final de ano.
    Quem conhece de perto a “prática” e a “teoria” dirá que um pouco de tudo isso resume e explica o que passa e vem passando pela cabecinha dos meninos e meninas da Faria Lima, de seus chefes e, em menor medida, de seus patrões.
    Como vivem em uma bolha bastante fechada e realmente acreditam que pensam que sabem o que estão fazendo e o que está passando ao seu redor, e mais e melhor do que a maioria dos outros pobres mortais (isto é, aqueles que não sabem “ler” os sinais e os desígnios do Deus Mercado) retroalimentam e reforçam entre si a própria crença que compartem e assim passam a acreditar, na ausência de crítica ou mesmo da simples e prudente dúvida, que se trata mesmo de conhecimento, de ciência.
    Existe uma série de incentivos materiais e imateriais que reforçam esse comportamento irresponsável e curtoprazista relacionados a própria forma de funcionamento dessas corporações e do próprio funcionamento desses mercados (as fraudes, os escândalos e as quebras que vêm ocorrendo nas últimas décadas são o resultado global dessas ações particulares).
    Se os meninos e meninas da Faria Lima, seus chefes e patrões, que são mais “inteligentes” podem enganar e se autoenganar dessa maneira, imagina os jornalistas “especializados” que “transmitem” e “retransmitem” as mensagens desses oráculos….
    Não sei se me explico? Há coisas que só mesmo vendo de perto para entender, mas custa duvidar que não estejamos sendo governados por uma associação de gângsteres e Napoleões de hospício (e olha que não me refiro ao presidente, e nem a seus milicianos de cano ou toga ein)

    1. Bicho é um aprendizado e um prazer ler comentários com o seu ,de Alecs e outros cá no Tijolaço,parece pouco mas da esperança de que temos senso crítico e bom senso nessa terra devastada.

    2. Gângsteres não seriam novidade, a novidade é que os desclassificados do baixo clero estão no comando para providenciar o que for necessário. Eles sempre estiveram por perto mas desde o impeachment de Dilma, assumiram o comando sem freios. Quanto aos “mercados” e aos meninos da Faria Lima, estão como de hábito a soldo da elite financista internacional, cada vez mais ávida por “golpes brancos” que lhes garantam bandeira verde para manipular preços, brincar com as cotações, “arbitrar” lucros exorbitantes, esmagar soberanias e explorar commodities e florestas a preço de baciada.

      Essa mistura de criminosos só aumenta à medida que o planeta entra em pane, os recursos ficam escassos e a riqueza global virou uma dívida monstruosa e impagável. Os pobres e a massa de trabalhadores da classe média baixa só são lembrados como bestas de carga, semi-escravos e eventualmente consumidores de ilusões como a previdência privada, etc.

      E a mídia hegemônica, gostosamente, tenta defender seu quinhão embaixo da mesa dos patrões. Salvo raríssimas exceções, não sobreviveram os analistas econômicos lúcidos neste País, o que é uma tragédia porque já tivemos times melhores.

      1. A ascensão do baixo clero não me surpreendeu não. O baixo clero sempre desempenhou um papel importante para o alto clero demotucano, seja para aprovar as “reformas” seja para dar estabilidade fisiológica aos governos. Sempre foi pau para toda obra, além de formar a base para as bancadas BBBs.
        A novidade (inclusive do ponto de vista geracional) foi a hiperpolitização dos “apolíticos”, a radicalização ideológica dos “indiferentes” e a manifestação mais clara desse fenômeno são os meninos e meninas da Faria Lima e os meninos e meninas concurseiros do Judiciário. Essas duas “forças tarefas” desempenharam um papel fundamental nessa nossa contra revolução arrivista.
        Apesar da novidade eles estão na velha tradição do autoritarismo tecnocrático republicano brasileiro, do bacharelismo às escolas militares passando pelas tecnocracia financistas. Formada pela fina flor dos filhos de nossas plutocracias e de nossas ávidas mínimas “classes” “médias”, compartem os mesmos valores morais e políticos, os mesmos gostos e hábitos, e mais ou menos a mesma formação educacional. Resumindo são o fruto acabado de nosso apartheid social.
        Trabalho há muitos anos no núcleo duro da alta finança brasileira e posso te garantir que nunca se passou algo nem de perto parecido em termos de radicalização e politização das Finanças com o que passou a partir do terceiro mandato petista e do processo de judicializaçao da política. A Finança entrou no que chamo de “modo empirucus” de ser. Era o mesmo vale tudo que a Força Tarefa da Lava Jato utilizava só que aplicado a esfera financeira. Em lugar do Telegram, os chats da Bloomberg. Penso que em matéria de manipulação foi até maior do que a da Lava Jato. E os efeitos destrutivos dessas duas forças tarefas estão ai ao alcance da vista: destruição econômica e institucional.

        1. Digo o mesmo em relação ao mundo da saúde, pública ou privada, particular ou SUS, este último meu palco de trabalho. Poucas vezes vi tamanha sanha agressiva contra oponentes de ideias, ainda que minoritários fossem. A novidade foi o descortinar de uma reação similar entre os prestadores de saúde paramédicos, sejam enfermeiros, técnicos ou auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas, funcionários administrativos, enfim, todos. Na sua maioria, dirigidos por preconceitos de classe social (médicos), religiosos (paramédicos) ou mero anti-petismo barato (todos). Pipocaram dezenas de casos de agressões verbais contra colegas e mesmo pacientes (lembram-se da pediatra que não quis atender o “filho da petista”?), chegando ao descalabro. Inclusive com perseguições contra colegas e desrespeito à hierarquia profissional. O germe da radicalização foi realmente disseminado a partir de 2010, os sinais da infecção surgiram em Junho de 2013 e, após a inesperada derrota em 2014, tornaram-se endêmicos. Acho que o processo de destruição esgarçou o tecido social para além da economia e da política, o abismo social que vemos ser criado responde à necessidade de gratificação destes impulsos, a redução de danos será penosa e sua viabilidade ainda não está confirmada, apesar do anticlimax bolsonarista. Não se brinca com ideias extremistas impunemente.
          A propósito, a insurreição contra Evo Morales começou neste campo, com uma greve deflagrada dois meses antes das eleições contra a criação de um modelo de atendimento público em saúde inspirado no SUS, deplorado pela categoria médica da “mezzaluna” e que privou de acesso à saúde a maioria do povo, começando a fermentação da raiva contra o “cholo”. Se há uma carência nos golpes latinos, é de originalidade no elenco.

          1. Sim isso que você bem descreve ocorreu em muitos outros setores profissionais senão na maioria deles. Aqui penso na ideia a respeito desses vários Brasis e da relação entre os diferentes habitantes de cada um desses “países” que “habitam” esse mesmo solo nacional fraturado socialmente e com suas enormes e abertas cicatrizes urbanas. Quando os primeiros sintomas desse verdadeiro transtorno mental coletivo apareceram lembro que tinha assistido ao genial documentário de Gabriel Mascaro, “Um lugar ao Sol”, que registrou em entrevistas o depoimentos de oito moradores de coberturas (desavisados moradores, entre o ridículo e o brutal em um estado perturbador de sonambulismo e narcose) e descobre o lugar exato do privilégio e da sensação de superioridade que mais tarde veio a se cristalizar nessa exótica ideologia da meritocracia em nada mais nada menos do que uma das mais desiguais sociedades do mundo (em todos os termos, de renda, de oportunidades, raciais e ou regionais). Vimos esse “gigante” despertar e dar embriagado seu primeiros passos, mas ai já era tarde demais para conter seus movimentos.

  5. Eu ainda não entendi a conta que mostra crescimento do Pib em 2019, mesmo essa merreca de 0,9%. Não parei para checar os números do IBGE, mas estou com a pulga atrás da orelha. Com base no que leio e ouço parece-me que renda das famílias está estagnada, os gastos do governo na linha da miséria orçada, a fadinha da confiança desapareceu de vez e levou com ela a taxa de investimento que, dizem, é a menor vista desde o tempo em que a Dilma tinha dentes e, por fim, a balança comercial vem de mal a pior há alguns meses.´
    Qual é a do tigrão? chuchucou de vez?

  6. Apenas acrescentaria o seguinte:

    A esquerda avisou: o mais importante é a reforma tributária com taxação dos mais ricos.

    Eles mentiram ao dizer que fariam uma reforma tributária logo após a previdenciária. A reforma administrativa passou à frente e sabe-se lá quando e se haverá reforma tributária. E, se houver, duvido que mexa no andar de cima, haja vista que Guedes é um representante dos financistas.

    Onde está o argumento do governo de que todos devem dar sua cota de sacrifício no momento de crise? Alguém está vendo milionários fazendo sua parte???

    1. Pior forma dos objetivos da OAB A OPA pretende ser 02 ou mais da mesma origem internacionalmente para defender o PT.

  7. O mundo é uma pirâmide e como tal o topo manda e é sustentado pela base.
    O povo nasceu para ser escravo, esse lance de igualdade, direitos, etc e tal e conversa para boi dormir.Veja o ex do Brasil um esquema parasitario criado pela instituição que chegou aqui com a família Real, eles mandam e desmandam em tudo, o STF quem não é bode é cabra

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