Remanescentes humanos

A expressão incomum, tão falada esta semana como eufemismo para o esquartejamento dos corpos de Bruno Pereira, indigenista e do jornalista Dom Philips assassinados no Vale do Rio Javari, fui descobrir, vem da Arqueologia, mais especificamente da Bioarqueologia.

Coisa capaz – muitas centenas, às vezes milhares de anos atrás – de ser testemunho de como o ser humano viveu e morreu em tempos remotos, em que éramos selvagens – e que, estranhamente, agora passa a simbolizar o nosso presente, nesta inacreditável vertigem ao passado de brutalidade em que mergulhamos.

Vem à cabeça se há algum remanescente humano em quem governa este país. Alguém que quando não se manteve calado sobre um drama que emocionou e envergonhou o Brasil, abriu a boca para ser feroz, culpando as vítimas – às quais nunca falou ou escreveu o nome – pela sua própria morte e, sobretudo, mostrando que há mais que passividade, cumplicidade do poder público com parte do nosso território ser terra de ninguém.

O que foi encontrado num buraco alagado num igapó do Rio Itaquaí, afluente do Javari, não são “remanescentes humanos”, são os restos mortais, as partes dos corpos de dois homens, dois profissionais, dois brasileiros certificados pelo amor a esta terra e à gente que vive aqui, até nas áreas mais perdidas na selva.

Remanescente humano é outra coisa, bem diferente.

No mesmo dia em que o presidente da República esbanjava frieza (fazia – e faz – muito frio nas cidades brasileiras) uma cena contrastava com ele, é incapaz de sentir compaixão, que não é “pena”, mas o sentir e constranger-se com a dor e o sofrimento alheio.

Um morador do bairro do Maracanã, sabendo que um pobre homem dormia na calçada, provavelmente faminto, pediu por um aplicativo de entregas que se lhe levasse uma sopa quente e um pão, quanto tantos pedem que lhe mandem um guarda a enxotá-lo.

O entregador, também um remanescente humano, fez questão de gravar a “raridade”, este resquício arqueológico de solidariedade, e postar nas redes, espantado que no país de Bolsonaro, um anônimo se compadeça com o sofrimento dos brasileiros com fome.

Estes são os humanos remanescentes. O que comprou a sopa, o que apertou a mão do homem, como um sinal de fraternidade. E os dois que descansam, neste momento , nas mesas de necropsia em Brasilia, a rigor inúteis, porque já lhes sabemos a causa mortis.

A estupidez que, por ora, impera neste país.

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