Suspensão da Covaxin: tarde demais para um moralista

Jair Bolsonaro recebeu hoje um panorama sombrio das irregularidades contidas no contrato de compra da vacina indiana Covaxin e, por isso, aceitou – ou determinou – a atitude do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e do controlador-geral da União, Wagner Rosário de suspendê-lo para averiguações e, muito provavelmente, cancelar sua execução que, afinal, nem está acontecendo.

Nenhum dos dois tomaria esta decisão sem consultá-lo, não num governo monocrático -“um manda, o outro obedece” – como o dele.

A esta altura, será quase impossível remendar o termo de contratação, como se remendaram as “invoices” capengas que acabaram por chamar a atenção para os gatos que habitavam aquela tuba.

Ao contrário, vai piorar o quadro, por algumas coisas que ficam patentes:

  1. Se há razões para suspender e averiguar o contrato hoje, sem que tenha havido nenhum fato novo senão a mesma denúncia do funcionário-com-irmão-deputado que foi levada ao presidente da República há três meses e um semana. Então, porque só agora?
  2. Se, como diz o presidente, foi mandado ao ministro Eduardo Pazuello, mesmo nas poucas horas que ainda permaneceria no cargo, porque ele e o coronel Élcio Franco não viram nada que pudesse justificar uma apuração de irregularidades.
  3. Por que, admitindo que fosse verdadeira a desculpa presidencial, não disse na primeira reação do governo, quando ao coronel foi dada a missão de sustentar com fatos as ameaças de Onyx Lorenzoni, não disse que tinha examinado os documentos e concluído que havia falhas, mas não vícios no contrato, mas um simples erro material na nota fiscal, prontamente corrigido e não ter dito que era falso o documento, afinal, verdadeiro e cheio de irregularidades.
  4. Não há maneira de jogar “foi culpa do rapaz” o erro de milhões de dólares. A esta altura, puxou-se o resto do lençol que encobria o aparelhamento do deputado Ricardo Barros nos contratos de compras do ministério.

Como se dizia dos duelos de pistoleiros dos filmes de bangue-bangue, “o governo piscou”, isto é, fez um movimento que denota medo, vacilação, o que o deixa numa posição mais frágil.

As denúncias sobre negócios mal explicados brotam como flores de inverno e algumas delas vão acabar por expelir os seus odores fétidos.

Os depoimentos de Carlos Wizard, amanhã, e o de Francisco Emerson Maximiano, sócio da Precisa Medicamentos, prometem.

Justo na hora em que o governo conseguiu respirar um pouco no ritmo de vacinação.

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