Tem batata na chaleira no negócio do apartamento?

“Olha, tem batata nesta chaleira”, dizia o velho Brizola quando uma história que lhe era contada parecia “não bater”.

A “história plausível” sobre a venda do apartamento por Flávio Bolsonaro, confirmada pelo comprador, Fábio Guerra, continua esbarrando em diversas inconsistências que, até agora, a imprensa não foi capaz de levantar, mesmo com as entrevistas do senador eleito e do ex-jogador de vôlei que fez negócios com ele.

Pela escritura, a compra do apartamento “na planta” em Laranjeiras  foi em dezembro de 2016, e o valor de R$ 1,7 milhão. A venda, pela qual teria sido pago o “sinal”no dia 24 de março de 2017, por R$ 2,4 milhões. Uma valorização de 41% em quatro meses, algo extraordinário.

Nem no boom imobiliário, que dirá nos piores momentos da crise.

De qualquer forma, as guias de pagamento do ITBI emitidas pela Prefeitura podem confirmar se houve tal variação de preço, pois o cálculo, hoje, é pelo valor de mercado.

Segundo, como levantou a Globo hoje, no Jornal Nacional, a escritura, lavrada em agosto, não detalha a forma de pagamento do sinal que, em tese, foi pago em março, no contrato de intenção de compra, embora seja incomum que não se pague o sinal nesta ocasião, até porque a desistência obriga a devolução em dobro ou a perda do pagamento.

Terceiro, que o comprador “não se lembra” de quanto pagou em dinheiro como parte da compra, a teor do que disse, da própria boca, ao JN:

“Dei o dinheiro em espécie. A média foi isso aí. Não posso falar ao certo, porque de repente foi 70, 80, foi 120, 110, entendeu, mas a média foi isso aí mesmo. O resto foi tudo depósito”.

Qualquer repórter mediano teria imediatamente perguntado: “o senhor não lembra quanto pagou em dinheiro?”

Qualquer habitante da Terra, tendo de pagar em grana viva “70, 80,  120, 110″ mil reais lembra perfeitamente de quanto foi.

Igual também não se perguntou porque ele pagou em dinheiro, aceitando-se passivamente que “alguém” pagou este valor em espécie também.

Em se tratando de pessoas de boas posses, aptas a fazer negócios no valor de milhões, é crível que não tenham contas bancárias?

Como o dinheiro vivo foi levado a Flávio Bolsonaro? Em casa, na Assembléia, por portador? Ninguém anda com R$ 20 mil ou R$ 30 mil no bolso ou na pasta sem cuidar de sua segurança. Dois ou três mil reais em dinheiro no bolso já deixam qualquer um de nós com os cabelos em pé.

Desde o início desta história, as explicações são sempre parciais e duvidosas.

Fabrício Queiroz disse na entrevista ao SBT que não daria detalhes por “respeito ao Ministério Público”, a quem entregaria os papéis. À Record, Flávio Bolsonaro disse o mesmo sobre os contratos e escrituras que, supostamente, exibia, mas que fez questão de tirar do alcance no momento em que o repórter fez menção de pegá-los.

Se tudo estiver correto, nada melhor que exibir os papéis.

Se não estiver, acontecerá como em toda história montada: vai se afundar em contradições.

Porque, quando se abre a tampa, aparece a batata que estava na chaleira.

 

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