“Tiro” da Folha é “arte”; yanomamis “de Biafra”, não

O ombudsman da Folha, José Henrique Mariante, critica a montagem fotográfica de primeira página estampada pelo jornal na quinta-feira, onde Lula aparecia inclinado diante de um vidro que aparentava ter sido estilhaçado a bala, dizendo que “o jornal ignora Manual da Redação ao publicar imagem de Lula que não existiu” e que isso seria uma espécie de “realidade aumentada”.

Não se discorda dos argumentos e da correção do crítico – aliás, na mesma linha das que foram publicadas aqui – mas não dá para concordar com a ideia de “realidade aumentada” num jornal que vem se especializando em ampliar as irrelevâncias e reduzir o que é fato.

Ontem, na partida de Lula e sua comitiva para Roraima, a fim de estancar a tragédia humanitária dos yanomamis, este blog apontava o fato de que a Folha – como toda a grande imprensa – desprezava o fato até o ponto de nem citá-la em sua capa, quando as redes sociais estavam inundadas de imagens de seres humanos – e crianças! – reduzidos a esqueletos.

Cenas que lembravam as que vi, aos 10 anos de idade, dos que eram então chamados de “os refugiados de Biafra”, resultado da guerra entre o governo da Nigéria e aquela região separatista do país. que durou de 1966 a 1970 e deu ao mundo retratos tão chocantes quanto os dos judeus nos campos de concentração alemães da II Guerra.

Não eram truques fotográficos, fotomontagens ou “realidade aumentada”. São imagens reais, tanto que a própria Folha as publica numa “galeria” precedida de um aviso de que “contém imagens fortes“.

Não mereceram um registro de capa, nem na Folha, nem nos “jornalões”.

Muito menos que se aprofundassem no tema, porque a tentativa de dissolução dos yanomamis através da sua exposição à sanha de garimpeiros é uma das mais cruéis e antigas expressões do pensamento da parte mais obtusa do pensamento militar.

O “Projeto Calha Norte”, formalizado no final do regime militar e no início do Governo Sarney, acabou sendo modificado, em grande parte por conta de o Governo Collor ter – enfrentando oposição militar – demarcado 9,5 milhões de hectares de reserva Yanomami, em 1991, antecipando-se à realização da conferência ambiental Rio-92 e pressionado pelo fato de o então presidente da Venezuela – onde vive também aquela etnia – ter declarado protegidos 8,3 milhões de hectares naquele país.

Mas continuou a haver aquela ideia de retirar o “perigo” indígena, a quem não consideram “brasileiros de verdade” através da ocupação por garimpeiros.

Também não saiu nos jornais que o epicentro da tragédia sanitária é um aldeamento chamado Surucucus, justamente aquele que Jair Bolsonaro mencionou na sua “bravata” sobre “cozinhar o índio”, imputando aliás aos indígenas um canibalismo que não praticam. Mundo pequeno, não?

Algo – só parte -desta história está publicada hoje pela BBC, mas não nos jornais brasileiros.

Após a derrota de Hitler, generais americanos punham ônibus a levar cidadãos alemães de locais próximos aos campos de concentração para que vissem com seus próprios olhos as desumanidades que ocorriam ali, para que aquilo não se repetisse.

Não se chega a tanto, mas será que nossos jornais não são capazes de mostrar aos brasileiros o que se fez ou se permitiu que fizesse na terra yanomami?

Estamos, porém, ao lado de “realidade diminuída”? Não dá para crer que é critério jornalístico por em eclipse aquelas imagens.

Jornal, afinal, deveria privilegiar fatos, não fotomontagens “artísticas”. Não é “realidade aumentada”, mas acumpliciarem-se, pelo silêncio, a uma monstruosidade que exige mais que ser interrompida, exige responsabilizar os seus autores.

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