Tragédia em Goiânia: é esse o “modelo” dos EUA que queremos para cá?

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Há poucos dias, o senhor Jair Bolsonaro se apresentou nas redes sociais praticando “tiro ao alvo” com uma pistola “ponto 50” que, dizia ele, iria entregar para cada policial brasileiro.

Hoje, um policial brasileiro, major da PM goiana, está sofrendo, certamente, o desespero de ver o filho ter pego sua arma “ponto 40” e, por motivo fútil, de um desequilíbrio adolescente, ter matado dois colegas, de 12 e 13 anos e ferido outros quatro, dos quais três estão em estado grave.

A “ponto 50” bolsonariana faria um estrago muito maior.

Embora a pistola fosse, provavelmente, a funcional do policial, e que possa ter  ocorrido um descuido fortuito em sua guarda, dá pra imaginar se os pais que fossem engenheiros, médicos, bancários, servidores civis, vendedores, todos pudessem ter em casa a sua arma, no discurso do “precisamos nos defender”.

Quantos adolescentes poderiam repetir o gesto deste infeliz rapaz, por serem jamados de “fedorento”, ou “dentuço” e “quatro-olhos”, como eu fui, ou por perder uma namorada/namorado. Ou por qualquer outra bobagem que, quando se tem 13 anos parece o “fim do mundo”?

Ah, mas a arma pode ser guardada desmuniciada, numa caixa trancada, com as balas escondidas em outro local…Doce ilusão de que não se esqueceria a chave, ou que não se acharia o pé de meia onde estavam os cartuchos, na última das prateleiras. Além do que, se fosse preciso usa-la para repelir um assaltante, levaria tanto tempo para juntar as peças que o pobre infeliz, provvelmente, levaria antes um tiro do invasor.

Arma, aliás, sempre foi um fetiche para adolescentes, um falo metálico, uma afirmação de poder.Nos países onde sua venda e posse é liberada, como os EUA, as tragédias se acumulam, às centenas, fazendo parecer “pouco” o massacre retratado no famoso Tiros em Columbine, de Michael Moore, exibido há exatos 12 anos, em outubro de 2012.

Esse o lado coletivo da tragédia, que deveria, a esta altura, estar matando de vergonha, se vergonha tivessem, os apologistas do armamento generalizado.

Mas há outro lado, o lado desta quase criança.

Ele tem 14 anos, a idade que os defensores do rebaixamento da “maioridade penal” querem para que se responda plenamente por atos criminosos.

Vai se dar a ele tratamento ou atirá-lo numa cadeia ou num destes “abrigos de menores” igualados a presídios?

O cuidado que se deve dar a ele é diferente porque é um filho de policial e um rapaz de classe média e não um mulato, filho de pedreiros?

Os defensores da bala e do encarceramento generalizado de menores que desejam nos fazer iguais aos Estados Unidos nas suas piores e mais desumanas práticas deveriam pensar duas vezes o quanto pode ter influído na cabeça deste rapaz o discurso do “diferença se resolve a bala”, não necessariamente em casa, mas certamente, como todos estamos vendo, em toda a sociedade e  nas redes sociais.

Todos somos respónsáveis por seu desatino, quando resolvemos viver na sociedade da intolerância.

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