Um golpista é menos perigoso quanto todos sabem que é golpista

Ponha-se na conta dos méritos do general Walter Braga Netto o favor prestado ao país ao fazer com que, para além de toda dúvida razoável, trata-se de um militar golpista.

Muito menos perigoso, por isso, de outros generais, como Eduardo Villas-Boas, que todos consideravam um ardoroso defensor da autocontenção do poder militar e não se pejou em articular, com outros chefes militares, um indecoroso “tweet” ameaçador ao Supremo Tribunal Federal.

Netto, porém, já avisa, “a quem interessar possa” – como no seu alegado e fracassado ultimato ao Congresso – aonde deseja ir: impedir qualquer eleição da qual não saia vitorioso Jair Bolsonaro.

O que, no quadro que se tem hoje, significa cancelar as eleições, pura e simplesmente.

Descaramento pior, até, que o do gole militar de 1964 que, ainda que da boca para fora, dizia desejar as eleições de 1965 e a possível volta de Juscelino Kubitschek ao poder.

Pouco importa se houve ou não, de fato, o desafio do general ou se isso foi, como ele disse ao ser abordado pela primeira vez sobre o assunto, uma “invenção”.

Ao não desmentir com firmeza, não tratando como sagrado o processo eleitoral e, ainda por cima, fazendo a defesa da mudança no voto pretendida por Jair Bolsonaro (aliás, nos mesmos termos de “ou assim ou não ocorrerão”), Braga Netto demonstrou que o arreganho, se não era verdade, é muito bem contado e corresponde aos seus planos.

Se exequíveis ou não estas planos, são outros 500, a ver quais são as distâncias entre intenções e gestos.

O general conseguiu a “proeza” de não apenas colocar contra ele e os comandos militares que parecem se amoldar candidamente ao seu desvario todas as forças políticas do país, inclusive a mídia, como fazer perceber às forças que, dentro das próprias Armas, não concordam com isso que há uma ameaça golpista – talvez, é verdade, com mais fumaça que fogo – e de que ou se articulam para barrá-la ou terão de obedecer no grito a um comando ilegal.

Em linguagem militar, perderam o pouco de “elemento surpresa” que ainda podiam ter os pendores golpistas da turma governista e, sobretudo, do seu ex-capitão-em-chefe.

Durante anos, ouvi os militares dizendo que 64 não foi um golpe, mas uma reação militar que vinha das classes médias e da imprensa. Agora, no máximo, podem dizer que uma intervenção militar corresponderia ao ronco das motocicletas, último estertor do bolsonarismo.

É mais fácil colocá-las nas ruas que aos tanques.

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