A crise da democracia. Por Nilson Lage

O atual fastio político – com atores medíocres como Macron, Macri, May, Trump, Trudeau, Bolsonaro ou Orban poluindo o palco – põe em xeque, afinal, o rascunho de democracia que vem sendo imposto ao Ocidente há dois séculos como projeção de algo real na parede da caverna concebida por Platão: um regime fundado na escolha racional pelos cidadãos entre partidos com projetos de governo definidos e conflitantes; a eleição periódica de parlamentos que legislam e executivos que aplicam as leis, sob a vigilância de judiciários que pairam, sustentados no ar pelo consenso e pela liturgia.

Isso soa falso, do começo ao fim. Primeiro porque, como se prova desde a experiência do iluminismo (ou a Revolução Francesa), a decisão dos cidadãos é emocional e momentânea; as técnicas que permitem determiná-la avançaram notavelmente ao longo do século XX. Nenhuma eleição expressa, hoje, escolha racional entre projetos, mas adesão a vórtices de amor e ódio cercando buracos negros.

Também os tais “projetos definidos” reduzem-se a nuances da mesmice política, porque o diferente, em todas essas “democracias”, é excluído, vilipendiado, xingado, quando não segregado em guetos ou enfiado em masmorras. Quando há vários partidos dissidentes, como na França, cuida-se para que briguem entre si, de modo a não incomodar; quando partidos em número limitado formam frentes amplas, como na Inglaterra ou nos Estados Unidos, zela-se para que os grupos que de fato discordem da ordem reinante – apelidada, às vezes, de “política de Estado” ou “de segurança nacional” – sejam minoritários.

A eleição para os parlamentos obedece, em geral, à dinâmica de tribos e comunidades que escolhem os candidatos e a mecanismos publicitários concebidos originalmente para vender salsichas e sabão em pó: a composição dominante de plenários combina chefetes locais, potentados ou líderes de gangues com políticos profissionais patrocinados por poderosos interesses financeiros – formando, por exemplo, bancadas do boi, da bala, dos bancos ou das drogas.

Inovação recente tem sido incentivar campanhas em favor de minorias comportamentais ou étnicas e teses transcendentes, desvinculando-as da relação entre capital e trabalho – ou entre impérios e vassalos – que é a única com poder de explicar os grandes conflitos políticos. Perdem, dentre as tais minorias, as que não conseguem se organizar, como as dos velhos, crianças ou mentalmente diferenciados.

De modo geral, chefes de governo escolhidos e substituídos em mandatos curtos são lembrados em listagens cronológicas que os escolares decoram: percursos marcantes na História das nações têm-se associado a duráveis lideranças, desde o apogeu da Atenas democrática, sob a ditadura de Péricles. Assim, em tempos recentes, Roosevelt e Stalin, Getúlio e Perón, Lula e Chávez, Adenauer e De Gaulle, Putin, Dien e Xi.

Prova-se que o cidadão médio, educado para ganhar a vida no exercício de uma profissão e acreditar em verdades prontas (da igreja, da escola, da mídia), é incapaz de discernir entre afirmações verdadeiras e falsas quando alheias a sua prática, e de localizar seu próprio interesse no jogo político. Com a promoção contínua do individualismo, a segmentação por várias formas de censura e a pregação das incompatibilidades, esgarça-se a coesão social e marginaliza-se a vocação para a solidariedade.

O confronto com tal estado de coisas envolve o fortalecimento do total sobre o parcial – do público sobre o privado, do social sobre o individual – que abre, então, espaço à livre iniciativa não-monopolista e criativa. A democracia passa a ser, não obra da opinião desinformada e eventual das pessoas, mas a realização de projetos coletivos de paz, progresso e bem-estar, permanentemente discutidos e auditados com o desenvolvimento de mecanismos de análise (qualitativos, quantitativos), acompanhamento e gestão.

Numa sociedade que pretenda tal democracia, a educação e a informação pública deverão buscar a construção de conhecimento (não só o adestramento profissional e a acomodação ao já instituído), a experimentação será contínua e a discussão constante, o que implica ampla liberdade, mas controle emocional e ético dos discursos Ela terá, com o tempo, a aparência de anarquia, ainda que organizada no essencial, e estará sempre em risco de ser assaltada por inimigos ferozes, como aconteceu, há cinco séculos, com algumas das civilizações vítimas da expansão europeia.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

19 respostas

  1. O último parágrafo é perfeito. A massa hoje não pensa mais, “pensam por ela”. Não há liberdade alguma de informação. O instituto Tavistock da Inglaterra já trabalha nisso desde a primeira metade do século XX e tem em Freud um de seus patronos. É preciso guiar o povo através dos sentimentos mais profundos. Pelos arquétipos diria Jung.

  2. Sr.Nilson.Tudo isso se deve,a TENDÊNCIA MUNDIAL,com relação a DESDEMOCRACIA,é que muitos do povão,passados vários séculos e vendo,que o TAL SOFISMA,não resolveu,ao longo de vários séculos,nenhum dos seus problemas,certamente passa por momentos de PERPLEXIDADE,visto que muitos advogam,de forma equivocada,os PRINCÍPIOS DO QUE CHAMAM DE DEMOCRACIA,que ao longo de toda sua vida,tem se revelado inútil,senão àqueles que dela se locupletam.Acenos de LIBERDADES,sempre colhem adeptos,contudo não passam de SOFISMAS.Enquanto isso não mudar,AS MAIORIAS VÃO CONTINUAR LUTANDO,não pela DESDEMOCRACIA,senão pela sua sobrevivência.E não tem nenhum nome para dar para essa luta inglória,senão acatar os SOFISTAS DE TODOS OS TEMPOS.Nossos problemas,não residem nas conjunturas e estruturas pelas quais passamos,senão PELOS Sofistas de todos os tempos,que redundam sempre,na DEFESA DAS SOCIEDADES DE CLASSES.Essa CANALHA,tem idade longa,quem sabe um dia,os FUZIS ACABARÃO COM ELA.

  3. Não sou e nem tenho a pretensão de ser sociólogo, mas o questionamento a sobrevivência da democracia nos tempos atuais me vem a cabeça todos os dias.
    Sem uma legislação técnica e com punição severa aos novos meios digitais de manipulação de massas a coisa vai sair de controle e cair no colo da burguesia de vez.

  4. Nosso problema nunca foi a Democracia, o Estado de Direito e suas instituições, mas sua ausência, sua fragilidade ou sua incompletude. Aqui ainda não passam de ideais que não conseguiram se fixar e perdurar em instituições concretas. Em nossa história toda tentativa de fazer valer a Democracia e o Estado de Direito foi seguida de uma forte reação, quase sempre seguida de uma brutal repressão. Democracia política, isto é, eleger nossos representantes políticos e ser eleito livremente, só a conquistamos em 1989, e voltamos a perder em 2016. Liberdade de organização sindical também só foi conquistada nessa mesma época. O mesmo para criar partidos políticos livremente (só nessa época um partido comunista pode ser legalizado e disputar eleições, antes disso, pode funcionar apenas entre os anos de 1945 e 47) Portanto nosso problema é a ausência ou incompletude da Democracia, e a persistência secular de um regime oligárquico, antidemocrático e antisocial.

  5. A mensagem de quase maior parte do post do Nilson é de desencanto,resignação,impotência ,só no final é que propôe a visão anarquista como uma possível retomada dos ideais democráticos.
    Mas ,cabe uma pergunta ,qual é o “milagre” que permite que uma parcela da população onde estamos comprendidos seja ciente da realidade que enfrenta??????? somos superheróis ??seres iluminados ou simples cidadãos que exercitam o BÁSICO exercício do questionamento????? aplicação da LÓGICA (insisto e morrerei insistindo sobre isso)
    Por qué essa desilusão com a posibilidade da Democracía ??,ELA É POSSÍVEL ,tanto é possível que é a única chance que as maiorías tem de exercer o poder!
    Na medida que por própria eleição(ninguém faz isso por nós,indivíduos) nos tornarmos sujeitos PASSIVOS do processo de escolha em nossa vida ,perecemos.
    Não deveríamos estar passando por isto ,mas, a história da humanidade sempre foi a de avançar dois passos e retroceder um.( o lastro que carregamos,os imbecis,é que nos fazem recuar)

    1. Permita-me: a Lógica, como qualquer construção humana, tem lá os seus problemas. Mesmo que façamos o exercício cotidiano do questionamento, muitas vezes erramos. Entendo que uma educação de qualidade, para todos, já seria um bom começo. Mas, nem isso vislumbro.

      1. A ciência aplica a lógica ,ela tem seus problemas também , mas é a que nos permite evoluir como espécie.
        Tem algo melhor?

    2. Você falou sobre lógica mas comete um erro básico de silogismo ao justificar a possibilidade da democracia com o fato de ela ser a única chance que as maiorias têm de exercer o poder. Do fato de que a democracia teórica seja a única chance para que a maioria exerça o poder não decorre que a democracia seja possível, aliás, não creio mesmo que ela seja possível, não como um poder que emana do povo e por ele e em seu benefício seja exercido. O grande poder é exercido pelos poderosos que de uma ou outra forma nos manipulam a eles beneficiam e eventualmente a nós, apenas como efeito colateral. É, então, Foucault e a microfísica do poder, mas não exatamente como ele propõe, senão como um poder secundário a nós concedido e que nos garanta a sensação de liberdade e protagonismo sem que, na verdade os possuamos a fim de evitar o convidando e o completo esgarçamento do tecido social. Desde a Grécia antiga ocupamo-nos de aprimorar a democracia. Lá já o reduzido número dos considerados cidadãos garantia que ela não era para a maioria e no decorrer da história nunca se conseguiu garantir ao povo o poder. Mesmo nas sociais democracias europeias as democracias se sustentam na base da exploração e destruição dos países subdesenvolvidos.

      1. Meu caro,não pretendo discutir conceitos profundos sobre Democracia ,sempre lidei com o prático.Quando digo que a “democracia é possível até porque é a única chance das maiorías exercerem o poder”,refiro-me ao cidadão ciente da sua condição de indivíduo.Obviamente pessoas não esclarecidas ao respeito, não conseguiram nunca viver numa Democracia .
        real,elas serão facilmente ludibriadas,independente de seu desejo e da sua “percepção” de Democracia.
        A lógica ( não um desejo)que aplico é bem simples ,indivíduo consciente=grupo esclarecido=sociedade democrática ,poderá qualifica-la de quase uma utopía ,mas vc não é um ser democrático?
        O seu comentário me remete as intermináveis discussões no início dos 70 ,que presenciava entre os “teóricos da esquerda” e sua total falta de aplicação prática de suas teorìas.
        Quando digo ao meus amigos que para recuperamos nosso poder como indivíduos duma sociedade organizada deveríamos propor o retorno às fontes, as células decisórias ,os municípios ,dar o poder a eles que hoje está concentrada nos governos estaduais e federais ele me olham como se fosse um ET.
        Tente explicar suas teorías, ao cidadão brasileiro médio atual ,verá o efeito que conseguirá.

    3. Não sei se o comentário que fiz anteriormente aparecerá, mas basicamente contesto seu argumento porque, logicamente, o fato de a democracia ser a única chance de a maioria exercer o poder não garante que ela aconteça. Uma coisa não leva à outra a não ser como desejo ou vontade.

  6. Será que o caso Queiroz no Ministério Público Estadual do RJ está esperando a votação da previdência para sair desta letargia atual? Já não basta terem omitido tudo nas eleições presidenciais que acabou fazendo que o Brasil votasse num miliciano? Perguntas que não serão caladas.

  7. o que vemos é o resultado (já esperado, na verdade) da democracia representativa, mas talvez esses problemas decorrentes da representação (alienação, individualismo) sejam visíveis porque de alguma forma foi preciso apelar para a irracionalidade da população para refrear sérias tentativas de implementar uma maior participação popular (no Brasil com o orçamento participativo, que teve repercussão mundial e na Venezuela, com os conselhos comunitários). talvez a possibilidade de avanço de uma democracia real tenha ocasionado essa reação, porque só a participação do povo nos negócios públicos é que seria capaz de educar para a cidadania, e a cidadania plena, a democracia plena é mesmo incompatível com o modo de produção capitalista. só é cansativa, no texto, essa ideia de que outras questões para além da luta de classes são menores – sabemos que o patriarcado é anterior ao capitalismo, e que o racismo é importante para a manutenção do status quo. para além disso, a defesa e o cuidado com crianças é pauta do feminismo, e até mesmo de pessoas vulneráveis, já que são mulheres as maiores responsáveis por cuidar e suprir necessidades materiais e emocionais dessas pessoas. é meio esquisito que homens brancos de classe média queiram estabelecer qual é a grande luta – e que ao mesmo tempo digam defender valores democráticos ou civilizatórios.

  8. A monumental analise de Nilson Lage é um pouco dificil de entender, mas do que absorvi concluo que a democracia, se quisermos sobreviver com ela, deverá se fechar de forma a preservar conquistas no que se refere a relações sociais fundamentais, impedindo que governos pontuais ameacem as bases dessas conquistas. Um exemplo concreto: a extinção do INSS por meia dúzia de financistas fascistóides põe em xeque a sobrevivência de dezenas de milhões, e tem o potencial de destruir a própria sociedade brasileira. Acordemos – uma conquista épica como a Seguridade Social não deveria ser sequer alvo de contestação, quanto mais de extermínio. Há algo de muito covarde em uma sociedsde wue permite um ataque como esse que a quadrilha que Paulo Guedes representa está promovendo.

  9. Essa abordagem de que a luta das minorias é uma tentativa de desvio de foco é um extrapolação indevida do sentido originário do marxismo porque na Europa de Marx não haviam pretos ou gays (não como uma minoria expressiva e ansiosa por seus direitos). Creio por isso que essa nunca foi uma preocupação para os pensadores comunistas. Duvido muito que como consequência da luta de classes os direitos dessas minorias fossem garantidos como também duvido que sem ela algum direito seja conquistado. Quem joga cortina de fumaça ao defender essas minorias não são elas mesmas, mas os “quebrando o tabu” da vida. Elas lutam, via de regra, por seus direitos como parte da esquerda, mas algumas vezes se sentem rechaçadas por esse tipo de argumento que as despotencializa. A minha opinião é que nunca combateremos verdadeiramente a desigualdade enquanto não fizermos as pazes com a história. Parece ser uma constante em nossa sociedade varrermos nossa história para debaixo do tapete, seja o período da escravidão, do massacre indígena ou da ditadura.

  10. Se o cidadão médio….é incapaz de discernir entre afirmações verdadeiras e falsas quando alheias a sua prática, e de localizar seu próprio interesse no jogo político.
    Também é fato que as forças populares no poder devem vigiar de perto a mídia corrupta e por na cadeia jornalista que vendem mentiras diariamente. Como vi e ouvi análise de âncoras nacionais atacando gratuita e covardemente lideranças populares, ou mesmo agredindo verbalmente e nada foi feito em nome de um falso Repúblicanismo…algo de que a direita não sofre

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.