A “Escola com Partido” de Bolsonaro

O general escalado por Jair Bolsonaro para gerir o quartel da Educação, Aléssio Ribeiro Souto, que já fala com a desenvoltura de quem foi “nomeado”, repete e amplia, no Estadão, as barbaridades que já havia dito à Folha sobre o programa inacreditavelmente primário e autoritário que tem para as escolas brasileira.

Num país que gastou anos na elaboração, por professores, especialistas e gestores, da recém concluída Base Nacional Curricular, ele quer, numa penada, uma “revisão completa dessas questões curriculares”,  usando como critério a “verdade” (ele é dono da dita cuja) para “não termos absurdos que vimos na TV, como a distribuição de livros que deixam qualquer mãe estupefata”.

O general, decerto,refere-se a um livro sobre sexualidade que jamais  foi distribuído nas escolas, como ficou claramente provado, mas, neste estranho critério de verdade, se Jair Bolsonaro diz que foi, então foi.

Mas  ele amplia as barbaridades como disse.

A “prioridade” para o professor não é melhorar sua  remuneração – “a remuneração é quinto ou sexto tópico a se considerar” – mas dar-lhe mais “autoridade”. Mas é curioso que a sua proposta já seja absolutamente igual ao que já acontece em situações extremas:

Tem de ter a ideia de que, depois dos pais, reverenciamos os professores. É absolutamente inaceitável a agressão ao professor e aos pais. Tem de ser reprimido.
Como fazer isso?
Dentro dos meios democráticos e legais. Aquele que ameaçar agredir o professor, aquele que dirigiu uma palavra mal dita ao professor, tem de haver repressão. Democrática.
E como é?
Tem de ser retirado da sala. Se agredir, polícia. A polícia leva as crianças e atua através do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Para adultos, polícia pura e simples. Delegacia. Não pode haver dúvida.

General, qual a novidade?

Nenhuma, a não ser que o aluno com desvio de conduta, num governo fascista e “caçador de ideologias” terá sempre a saída de dizer que o professor que ele quer atacar “é comunista”, que estava tentando incutir propaganda esquerdista, etc, etc… Bom, aí ele já entra na cota do “metralhar os petistas”, certo? O dedurismo vai virar uma maneira simples de intimidar o magistério, pois imagine o que é usar, numa aula de português, um escrito de Graciliano Ramos, “aquele escritor comunista”…

O raciocínio medíocre e autoritário não passa, claro, por tornar a escola um local agradável, de convívio amigo e respeitoso, mas por uma visão meramente militar da relação entre professor e aluno: um manda, o outro obedece.

Isso, general, não funciona mais nem mesmo dentro de casa, com um ou dois filhos, o que dirá numa turma de 40 adolescentes e qualquer professor sabe disso. Sou filho de uma mulher que foi professora primária, alfabetizadora, por 20 anos. Nem ela, nem suas colegas jamais fizeram isso por uma simples e básica razão: não funciona.

Ao contrário do que ocorre nas escolas privadas ou de nas de acesso restrito, levar as coisas ao ponto da exclusão do aluno é o mesmo que dizer: “vá ser um pária ou um criminoso”.

A abordagem que faz do sistema de cotas, em lugar de sugerir aprimoramentos, é querer invalidá-lo pela exceção.

“Pobre branco de olhos azuis não tem direito?”, pergunta.

A pergunta poderia, também, usando como exemplo garotos negros filhos de pais bem-sucedidos: “mas o neto do Pelé não tem direito?”

É o melhor caminho para que nada nunca mude, porque reduz tudo à questão do mérito individual, como se o mérito fosse uma característica dos cromossomos, não predominantemente do ambiente em que uma criança se desenvolve.

O general, como educador, é pior que um zero à esquerda.  É o vetor de um pensamento que, ao encarar o aprendizado como um dever e não um prazer, torna a escola triste e ineficaz.

A propósito, General, a publicação de sua entrevista hoje,  no Dia do Professor, é uma crueldade que o magistério brasileiro, já tão sacrificado, não merecia.

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22 respostas

  1. … Mas, cumpre lembrar, “os(as) escolarizados(as)” votam no troglodita nazista!
    A pré-Idade Média é aqui!
    Viva!

    1. Hoje em dia, diploma é só um certificado para trabalhar em alguma área. O Brasil tem a pior elite do mundo que tem instrução, mas não tem educação. A prova está nas urnas.

  2. A Globo está perdendo tempo precioso. O tempo vai passando, e a possibilidade de um governo civilizado, de bem com o mundo, pronto para receber mil críticas, pronto para ver o carnaval passar cheio de alegria, pronto para defender o país e seu modo de vida, vai passando, vai passando, também… Por último a Globo passará, e o maravilhoso Brasil e a maravilhosa Globo serão apenas um retrato desbotado na parede.

    1. A Globo que viria a ser “fatiada” pela regulação da mídia? Não sei se ela opta por um lado ou pelo outro.

  3. EDUCAÇÃO É UM BEM TÃO PRECIOSO PARA UMA SOCIEDADE CIVILIZADA,QUE ENTREGA-LA AS MÃOS DE UM PRIMATA (todo fardado é) DEVERIA SER CONSIDERADO CRIME DE LESA-HUMANIDADE.
    Estes são cães treinados pelo Tio Sam ,nas escolas militares COM A IDEOLOGIA DO ENTREGUISMO E DA ANTI-NACIONALIDADE. ,ISSO SIM VIÚ FARDADO??ISSO É O QUE DEVERIA SER MUDADO.,

  4. Sem falar que o plano educacional do Bozo inclui o ensino religioso para as crianças que frequentarão as vagas em creches que estão sendo projetadas para acolhê-las. Diz a matéria do portal UOL que o ensino religioso ficará a cargo das igrejas que receberão dinheiro do governo para ensiná-las. Só ligando os pontos: adivinha quem são essas igrejas? Claro, só pode ser as igrejas do bispo Edir Macedo. https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/agencia-estado/2018/10/14/plano-educacional-de-bolsonaro-une-criacao-de-creche-e-ensino-religioso.htm

    1. As igrejas simoníadas vão ganhar agora dinheiro do tesouro público para doutrinar as indefesas criancinhas brasileiras. A Igreja Católica é outra instituição que está a ver o tempo passar… Passar…

      1. Pois é! Não é à toa que a Igreja Católica está às voltas com acusações de seus membros de serem pedófilos e predadores sexuais. Afinal são R$ 49 bilhões que estão na jogada, segundo a notícia da UOL.

  5. Teremos uma escola ideologicamente voltada para batermos continência à bandeira dos Estados Unidos. E nas universidades também, adeus autonomia universitária! Aprenderemos a história sob a ótica bárbara dos anglo-saxões, que não admitem por exemplo que Napoleão, para eles um louco, criou o mundo moderno quando instituiu a coleta de lixo urbano, padronizou as medidas de volume, peso e distância e, principalmente, separou a igreja do estado e estabeleceu o registro civil de nascimento, casamento e óbito, e fez e espalhou pela Europa feudal o código pelo qual todos os cidadãos têm direitos iguais com liberdade igual de comércio e indústria, pondo assim um fim nas “confrarias” que os monopolizavam em sociedades tipo secretas. Quando os invasores alemães chegaram a Paris na segunda guerra, seu guru Alfred Rosenberg, uma espécie de Olavo de Carvalho deles, fez uma proclamação na Assembleia Nacional na qual disse solenemente que estavam ali para enterrar a Revolução Francesa, que havia dado direitos iguais aos judeus e assim, “infectaram” a Europa e macularam a “cultura europeia”. Deveremos esperar sem desesperar por uma intervenção ideológica radical no ensino brasileiro, com a vitória de nossa forma particular de fascismo? Acontece que estas coisas deveriam estar sendo debatidas e expostas em programas de televisão, em lugar das criminosas mentiras sobre kitgays que pretendem claramente enganar o povo para roubar-lhes o voto. O povo, inocente do que pretendem, está sancionando um programa de governo que lhe é oculto, que lhe é desconhecido, e isso nada tem de honesto e muito menos de democrático.

  6. Aos colegas professoras e professores, no dia de hoje, contra esse discurso patético do general, felicitações pelo caminho que escolhemos! Todos os dias, com cada um dos estudantes que estão em contato conosco, sejamos exemplo de luta por justiça e dignidade! Haddad 13 !!!!

  7. Ué, mas o seu mito vai acabar com a ECA! Aliás, ele vai acabar com tudo que se conquistou com muitas lutas e discussões acadêmicas. Ele e seus generais irão impor a sua sapiência de Wikipédia e da disciplina dos quartéis na educação. Retrocesso violento.

  8. Este milico de pijama nem sabe do que está falando. As cotas não são necessariamente raciais. Na UFRJ, por exemplo, 50% das vagas são reservadas a alunos das escolas públicas ponto – ou seja, a alunos que fizeram o segundo grau todo em escolas públicas. Se, aí, a maioria não é louro de olhos azuis, isso não lhe diz nada não, generalzinho?
    Quanto á escola “sem direção ideológica”, o que ele está propondo senão uma direção ideológica para as escolas? Ideologia não é só à esquerda, não.

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