A “manchete cloroquina”

A Folha dá manchete hoje a uma “adivinhação” daquele padrão “Trump-Bolsonaro” de epidemiologia, aquele primeiro classificou de “gripezinha” a Civid-19 e, depois, arranjou a cura milagrosa pela cloroquina.

Como assim a curva de óbitos “sugere” uma “imunidade mais ampla” da população em geral em relação à doença?

Imunidade não se mede em número de óbitos, mas em número de casos, é evidente. Imunidade é resistência a contrair a doença, óbvio. Número de óbitos (sobre o número de casos) medem letalidade e ela, por aqui, é muito mais alta que na grande maioria dos países.

É claro que o grau de imunidade pode (e deve) estar crescendo, sobretudo nos primeiros locais fortemente atingidos e que isso produz, em tese, uma redução expressiva na propagação da doença, tal RO que você ouve os especialistas falarem em suas entrevistas.

Isso é uma progressão geométrica, onde uma pequena diferença na razão (neste caso, o “R0“) produz, ao longo do tempo, números muito diferentes. Faço um exemplo com razões de 1,5 e 1,7: com 1,5, os valores seriam os seguintes pelo número de pessoas que uma pessoa infectaria , a cada semana (entre parêntesis): 1(1); 1.5(2); 2.3(3); 3.4(4); 5.1(5); 7.6(6); 11.4(7); 17.1(8); 25.6(9); 38.4(10). No caso de 1,7 : 1(1); 1.7(2); 2.9(3); 4.9(4); 8.4(5); 14.2(6); 24.1(7); 41.0(8); 69.8(9); 118.6(10).

Mas é impossível conhecer ou até estimar quantas pessoas têm ou tiveram contato com o vírus, dado ao baixíssimo número de testes realizados no Brasil, um dos menores do mundo em relação à população. É isso o que fez descer, continuamente, a taxa de letalidade da pandemia, o que de fato tem ligação com os óbitos mostrados nos gráficos da reportagem. Mesmo com o número de mortes (o numerador da fração) aumentando, o número de casos detectados (o denominador) crescia, e continua crescendo, em ritmo mais acelerado.

Isso ocorre aqui e no mundo, cuja escalada de casos e de mortes vai aí ao lado, para não haver dúvidas de que o agravamento da expansão do vírus segue galopante e as mortes crescem, ainda que mais suavemente.

O problema da manchete da Folha é, aliás, apontado na própria reportagem, onde a microbióloga Raquel Pasternak diz que “ela (a suscetibilidade ao contágio) talvez já não seja tão grande, mas não sabemos. O que não podemos é tratar isso de forma que dê a impressão de um liberou geral [onde o vírus já fez muitos estragos].”

Infelizmente, mesmo atenuado com o tal “sugere”, o quadro de gravidade da pandemia é subestimado e isso é inacreditável num país que registra mais de mil mortos por dia e 40 mil novos infectados. Usar uma “possibilidade”, sem nenhuma sustentação científica, é igual ao, como disse, caso da cloroquina: wishful thinking é desejo, não é ciência.

E pode, tal como a droga predileta da dupla Trump/Bolsonaro, tem efeitos colaterais já em pleno curso: o “liberou geral” que a reportagem diz que “não provoca aumento de casos”.

Não, ?

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