Ciro, ouça Paulo Henrique Amorim

Chegou a hora de contar o que testemunhei em 2002.

Afinal, a memória é o livro mais precioso a se consultar na hora das grandes decisões.

Ciro Gomes, que estivera no topo das pesquisas, esvaziara-se e Leonel Brizola – que tinha muitas divergências e duras críticas ao PT, não raro merecidas  – temia que se armasse, no segundo turno, alguma trampa que pudesse evitar a vitória de Lula.

Por isso, pediu a Ciro que renunciasse à sua candidatura e levasse Lula à vitória ainda na primeira rodada eleitoral.

A reação de Ciro foi tão furiosa que Brizola – que era um homem que respeitava o que era dito em intimidade – não quis me descrever as palavras, mas apenas o clima da negativa, digamos, veemente.

Espero que Ciro, 16 anos depois, tenha se tornado menos figadal e honre o que ele próprio diz sobre pensar no Brasil.

Ninguém, agora, pede que abra mão de sua aspiração eleitoral ou de sua candidatura. São legítimas e respeitáveis.

Mas todos temos o dever de pedir-lhe que não feche as portas, como acabaria não fechando em 2002, no segundo turno, apoiando Lula.

Os que me acompanham sabem que conto passagens do que vivi com Brizola, mas jamais invoco seu nome para dizer o que ele faria ou a quem apoiaria como candidato. Por isso, reivindico a autoridade moral para não aceitar que o façam, ainda mais se for para dizer que ele faria o que nunca fez: ficar ausente do embate com as forças do atraso e do fascismo.

Aprendi, em 22 anos a seu lado, que não ficamos sobre o muro e sabemos a que lado do muro pertencemos.

Por isso, transcrevo e peço, sinceramente, que Ciro Gomes leia o que escreve Paulo Henrique Amorim, decano da blogosfera progressista e meu bom amigo:

Quem vota em Ciro vota em Haddad no 2º turno

Paulo Henrique Amorim, no Conversa Afiada

Numa entrevista por telefone, de São Paulo para uma rádio do Rio Grande do Sul, Ciro Gomes disse que não vai apoiar Haddad no segundo turno.

Como é inconcebível que ele apoie Bolsonaro, a declaração equivale a dizer que ele só participa da disputa eleitoral, ou seja, da Democracia, até certo ponto – até quando estiver em condições de ganhar.

Se perder, ele não joga!

Não basta Ciro dizer, como disse, que é amigo do Haddad e que o PT faz muito mal ao Brasil há muito tempo.

O Bolsonaro fará muito pior.

Mais do que o Collor.

Além disso, Ciro não é dono do voto de ninguém.

Voto não tem cabresto.

Essa reação aparentemente autoritária se assemelha às que critica em Lula: só o Lula manda no PT.

E o PDT?

E os pedetistas de sempre?

Os brizolistas de sempre?

Os que defendem ideias do Ciro sem que sejam necessariamente ciristas?

Em 1989, Lula só foi para o segundo turno contra Collor por uma diferença inferior a 1% em relação a Brizola.

E mesmo inconformado, subindo pelas paredes, Brizola transferiu TODOS os votos que teve no Rio e no Rio Grande do Sul para Lula, no segundo turno.

Brizola disse a seus eleitores:

– Vamos ter que engolir o sapo barbudo!

Ciro tem 61 anos.

E uma carreira política exemplar.

É um candidato de jovens ideias.

E impoluto.

Não pode dizer que jamais será candidato a Presidente, de novo.

Não pode jogar 10% das preferências do eleitorado pela janela!

Agora, como Brizola, ele tem a responsabilidade política e moral de engolir o sapo… de novo!

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