Não tem time bobo no futebol. Nem país bobo na União Europeia

Devagar com o andor na avaliação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

É claro que acordos comerciais podem ser vantajosos ao país e a União Europeia não é parceiro pequeno, que não tenha importância.

Mas só com o conhecimento dos detalhes acordados e suas formas e prazos de implementação é que se vai saber o que foi dilatado e o que foi engessado nas muitas áreas de negócios.

A cota de 99 mil toneladas de carne bovina que o bloco tem o direito de exportar para a UE é evidentemente pequena.

Ano passado, já se havia feito a concessão de baixar de 390 mil para 160 mil toneladas de carne bovina na cota de importação sobre as quais incidiria tarifa menor. O que passasse disso, teria tarifação mais pesada. Agora, ao que se noticia, ficamos com 27% da quantidade inicialmente pretendida e 62% do que foi a última proposta de acordo.

Na indústria, o efeito de curto prazo é negativo, para um setor que já não anda lá muito bem das pernas. A eliminação da tarifação de componentes pode ser um pequeno alívio, mas certamente menor que as vantagens concedidas na importação de produtos acabados. Na melhor das hipóteses, ganharemos montadores nacionais, no médio prazo.

A ampliação das compras e serviços governamentais poderia ser muito mais vantajosa se o polo de exportação de serviços de engenharia brasileiro – talvez o únic setor onde estivéssemos entre os top players mundiais – não tivesse sido arruinado desde 2015.

É cedo para se dizer completamente o que repercute o acordo em cada setor e, portanto, globalmente.

Gente que conhece o assunto, como Marcelo Zero,  chama o acordo de “7 a 1”, em artigo no Brasil 247. Pode não ser de tanto, até, mas é bom lembrar que nossos países entraram derrotados em campo na última rodada.

De modo significativo, os europeus estavam, até pouco tempo, exultantes. Falavam da “oferta generosa” do Mercosul, sob a batuta de Bolsonaro e Macri, dois governos acossados pela recessão, a fragilidade política e a submissão ideológica. Os europeus não mudaram de posição, nós sim.

Apesar de ameaçados pelas consequências de uma guerra comercial entre EUA e China, os países europeus vivem um ciclo de crescimento econômico, enquanto os dois “cabeças” do Mercosul, Brasil e Argentina, vão, respectivamente, de mal a pior, embora, como você vê no gráfico de nossas vendas à União Europeia, não devêssemos ter nenhuma pressa em fechar acordos desesperados.

O primo rico sempre leva vantagem com o primo pobre nos negócios. Mas, mais ainda, quando este está matando cachorro a grito.

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9 respostas

  1. Aves de rapinas estão espalhadas pelo mundo afora. Não tem ideologia. Estão sempre atrás de carniça. Mercosul é a carniça da vez.

  2. É inacreditável! A União Europeia está agindo como um abutre oportunista, aproveitando-se de que o Brasil está atravessando um péssimo momento, com um governo claramente irresponsável quanto à defesa dos interesses nacionais e do continente sul-americano. Agem como reles aproveitadores, e jamais serão perdoados por isso, quando o país voltar à normalidade democrática.

  3. No ano passado, nossa balança comercial com a UE somou 7 bilhões de dólares de superávit. Com esse acordo, de vender comodities e abrir o mercado para produtos industrializados do bloco europeu, ficaremos na dependência dos preços das comodities (“comodis”, segundo o Bozo). Passaremos a ser, mais do que nunca, fornecedores de matéria prima: carne e trigo, no caso da Argentina, Uruguai e Paraguai e de soja, petróleo, minério de ferro e carnes, pelo Brasil. Com importação de manufaturados da UE, nossa indústria vai para o saco. E os imbecis diziam que o governo Lula fez a economia crescer por causa das comodities quando, na verdade, ele fez o contrário: salvou a industria naval, o setor de construções e a indústria brasileira (automóveis, geladeiras, fogões, máquinas de lavar, aparelhos de ar condicionado, etc.). E o mais cruel de tudo: Bozo festeja o acordo do Mercosul, iniciado desde 1999 com a UE, mas quando tomou posse ele e o Guedes disseram que o Mercosul não era a prioridade do governo. Tanto é verdade que mandou tirar o logotipo do Mercosul dos passaportes brasileiros. E agora quer ser o pai da criança. Que cinismo!

    1. Se não é o mais cruel, certamente o mais revoltante: a alegria de alguns tuitando que agora poderão comprar produtos verdadeiramente bons por um preço aceitável, podendo deixar as “tralhas” brasileiras de lado e torcendo para as fábricas nacionais fecharem logo. Nenhuma preocupação com os postos de trabalho que a substituição de importações gerava, e que logo contribuirão para um mar de desempregados que já conta com mais de 13 milhões de pessoas. Acho que o país acabou mesmo…

  4. É um acordo com o Mercosul, se bem que somente os mercados Brasileiro e argentino é que são relevantes. Nem se sabe se estes acordos serão implementados.. Nada impede que sejam vetados por vários países da Europa. Achar que vamos ter acesso a mercados sem contrapartidas fortes é ridículo. Muita gente , os imbecis de sempre, comemoram, sem sequer ler o que foi acordado. O México também achou que ia se dar bem com o Nafta…..

  5. Os europeus são negociadores muito duros, não cedendo, inclusive assumindo posições ainda mais duras perante as hesitações da outra parte. Assim foi, nestes últimos anos, com a Grécia, com o Chipre e com o Reino Unido. Desta forma, há boas razões para ficar cético quanto a este acordo. No mínimo, o Brasil deu garantias escritas no recuo das suas atuais políticas ambientais e ao nível dos pesticidas, algo sem o qual a UE não assinaria qualquer acordo. Mas eventualmente terá dado muito mais, pelo que não ficarei espantado se se vier a saber que este não é um bom acordo para os interesses brasileiros.

  6. Pessoal, quem não tiver elementos para julgar esse acordo, apenas veja o que a Globo achou dele: se gostou e elogiou, é porque não é bom para o Brasil. Simples assim.

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