A “nota mil” na redação de Carmem Lúcia, por Gustavo Conde

tiacermem

Gustavo Conde é linguista e professor de redação. Envia-me este texto, que publico tanto por sua dor quanto pelo fato de que alguém, um dia, faça chegar a Cármem Lúcia a redação que ele imagina e que ela incentiva.

“É com muita dor que faço uma redação em forma de paródia-denúncia, estarrecido com a decisão unilateral, apressada e chocante da ministra Cármen Lúcia em não zerar redações que violem direitos humanos no Exame Nacional do Ensino Médio. A sociedade brasileira que já sofre com a violência do Estado não merecia um ato de tamanha violência simbólica do tribunal máximo da república. É o nosso AI-5.

Para um professor que passou anos preparando alunos para respeitar os direitos humanos e que sabe da imensa importância técnica deste critério de correção para a qualidade do debate, do texto e para a construção da cidadania, é humilhante ser obrigado a ver uma decisão dessas em plena e suposta democracia.

O instrumento de zerar a prova de redação que viole direitos humanos não é apenas um critério de correção, como defendeu a ministra em seu texto: é um procedimento de indução do debate público qualificado e cidadão, é uma poderosa ação simbólica que irradia consciência, solidariedade e sentido de liberdade para a sociedade brasileira.

Hoje, posso dizer que me sinto envergonhado diante dessa instituição que atende pelo nome de STF e, sobretudo, por sua presidente. Segue a redação-denúncia. Não é uma leitura leve e peço desculpas por redigir peça tão violenta. Mas, talvez, ela seja importante do ponto de vista pedagógico e histórico, para que esse ato suicida de um tribunal confuso possa ser devidamente combatido em sua verdadeira dimensão imoral. É para chorar e se indignar.

[Nota: do ponto de vista técnico, é uma redação quase perfeita: em norma culta, tema, coerência e coesão, teria a nota máxima ou quase a máxima. Até a proposta também seria “boa”, porque ela está “tecnicamente” organizada. Uma redação, sem o zero da violação dos direitos humanos, praticamente nota mil].

A falácia dos direitos humanos

Autor imaginário, mas menos do que se imagina

‘Desde os primórdios da humanidade, o homem fala em direitos humanos. E sempre que se fala em direitos humanos é para defender bandido. O sujeito rouba, mata e estupra e a sociedade é obrigada a respeitar os direitos humanos dele. Pessoas assim nem podem ser chamadas de pessoas: são subgente. Merecem apodrecer na cadeia, sendo torturadas e humilhadas.

Uma instituição que tem sido exemplar no combate à falácia dos direitos humanos é o STF. Um dos lugares em que mais se mata no mundo são os presídios brasileiros, e a sociedade apoia isso, pois percebe que há uma instituição séria que também apoia. A presidente do STF, a ministra Cármen Lúcia, visitou recentemente os presídios brasileiros, testemunhou as condições precárias e merecidas desses indigentes e, muito acertadamente, nada fez. O STF tem o apoio de toda a sociedade do bem, que quer a morte de todos esses negros assassinos que só oneram o Estado.

Índios, moradores de rua, sem-terra, sem-teto, homossexuais, negros, deficientes, mulheres pseudo vítimas de violência, crianças delinquentes, toda essa população merece o que lhes ocorre nesse preciso momento: a indiferença do Estado, que tem que se preocupar com as pessoas que trabalham, pagam seus impostos e sustentam suas famílias. Mais do que isso: eles merecem a limpeza étnica que os governos estaduais, através de suas polícias, promovem há anos de maneira exemplar, em suas incursões nas periferias.

A sociedade do bem apoia o STF em sua cruzada contra essa mentira que é a defesa dos direitos humanos. Defesa de direitos humanos é defesa de bandido. É preciso que o STF intensifique sua admirável ação em continuar esmagando essa população que não merece viver, seja com sua indiferença, seja no contingenciamento de verbas para o sistema carcerário, seja punindo quem insistir em proteger bandido. A sociedade do bem tem uma inspiração para continuar combatendo as mentiras da defesa dos direitos humanos: o STF e sua presidente, a ministra Cármen Lúcia. Com essa instituição ativa, a sociedade brasileira vai limpar a toda a sujeira humana que ameaça a vida do cidadão de bem.”

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email