O cachorro do mendigo

O Globo publica hoje, aberta em sua capa, a foto de Domingos Peixoto, foto que se pode fazer às centenas em um único dia de passeio no Centro e na Zona Sul cariocas.

O flagelo se espalha“, diz o jornal.

Mas a razão é covarde como é covarde a Globo: são os “projetos da Prefeitura que não saíram do papel” os responsáveis pelas cenas de miséria human que se assiste aqui, mais cortantes ainda nestes dias de frio impiedoso.

É óbvio que é dever da Prefeitura (e do Governo do Estado, com a sua Fundação Leão XIII, de Assistência Social) prover um mínimo de abrigo e cuidado a estas pessoas – sim, são pessoas, embora muitos nem mais os vejam assim – mas qualquer um sabe que isso é quase que como “enxugar gelo”, se as pessoas não têm trabalho.

A reportagem fala dos fracassos de programa de emprego do Prefeito Marcelo Crivella, desafeto da Globo e um admnistrador bem ruim.

Mas nem se fosse o maior gênio do mundo daria jeito nas situações dramáticas criadas pela crise que o regime instalado com a ajuda da Globo no país, especialmente cruel com o Rio de Janeiro.

Como “recolher” indigentes num estado que, desde o final de 2015, perdeu meio milhão de empregos? Só no ano passado, e só aqui no município da capital, foram mais de 55 mil postos de trabalho a menos, ou uma pessoa demitida a cada seis minutos, a maior perda de empregos registrada em todas as cidades brasileiras. E não é só a capital, mas as cidades do petróleo: Macaé e Duque de Caxias, dois pólos do setor, perderam juntas mais empregos que toda a imensa cidade de São Paulo!

Foi aqui que caiu como uma maldição a política de desmonte da Petrobras, paralisando, entre outras, as imensas obras do Comperj. Foi aqui que a indústria naval foi assassinada, pois agora se manda fazer na China e na Coreia as plataformas do pré-sal. É aqui o lugar onde se prevêem investimentos federais, mas para comprar fuzis, munição e outras quinquilharias para um “combate à violência” que, em seis meses de tropas com armas ensarilhadas, continua a ter horrores diários e nem mesmo resolve o caso do assassinato da vereadora Marielle Franco.

A Globo poderia ser um grande instrumento de defesa do Estado onde ser formou e se nutriu dos talentos da arte e da cultura cariocas, mas sempre preferiu ser sua algoz. Os problemas da cidade só aparecem quando os governantes são seus adversários. Ou quando já não prestam mais para coisa alguma, como seu ex-“queridinho” Sérgio Cabral. Poderia protestar contra a destruição da economia fluminense produzida por outro “queridinho”, Sérgio Moro.

Mas só o faz por interesses, financeiros ou de poder, lo que no es lo mismo, pero es igual.

Ontem, numa calçada da Zona Sul,  vi um morador de rua, um indigente, ter um ato de desprendimento e de amor que a cúpula da Globo jamais seria capaz de ter. Pedia aos passantes que cuidassem, porque nem isso ele conseguia, de seu amigo mais fiel e menos exigente: seu cachorro vira-latas.

Quando um mendigo dá  à caridade pública o seu cachorro, que nada pede por seu amor, é que já perdeu tudo, menos a humanidade.

Ao menos isso ele tem mais que o Marinho.

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