O país que cata osso perdeu seu esqueleto?

Francamente, é doloroso dizer que a política já não nos atrai tando quanto na redemocratização do país, fez mobilizarem-se consciências e ter um mínimo de esperanças de transformação do Brasil.

Está mais difícil ser jovem neste país e isso dói muito a nós, mais velhos.

Discutir austeridade na gestão pública – na verdade, uma simples obrigação de qualquer governante – é algo que tangencia o paradoxo, quando isso significa que nossos cidadãos precisam catar ossos e lixo para se alimentarem.

Recusar esta situação não é ideologia, é apenas humanidade, mas até isto não comove nossas elites políticas.

Vivemos em um país degradado, onde nos permitimos o “nem-nem” diante de democracia e fascismo, entre fome e sobrevivência, entre civilização ou barbárie.

Assistir, a esta hora, que se mostre capaz de aceitar uma “opção Paris” diante do embate que – se não nos impedirem – se dará em outubro de 22 é, talvez, a maior prova da decadência da elite brasileira.

Decadência, aliás, suicida.

Talvez não, porém. Porque nos tornamos prisioneiros de um moralismo vazio e cruel, de um exibicionismo individual corrosivo, de uma futilidade atroz, de um aventureirismo que faz em semanas ou meses o que anos de trabalho e dedicação não fariam.

O Brasil precisa reerguer o valor do trabalho como fonte da riqueza individual e social.

Janio de Freitas, em sua coluna na Folha, diz com indignação que falta à crônica política, sempre presa à negociação pusilânime da semana entre deputados, adverte que há uma voragem pronta a devorar todos eles:

Mesmo a corrida aos ossos despejados, para a guerra contra a fome, causou mal-estar ou indignação muito maiores mundo afora do que aqui, onde não faltou mais revolta com a exibição de ossos e catadores do que a realidade que os uniu, como antes fizeram os cães. Entre os que se aventuram a formar o elenco das eleições presidenciais de 2022, o principal figurante ainda está silencioso: é o aumento da pobreza, que já chegou aos ossos, os despejados e os próprios, e não terá quem a socorra até lá.

O Brasil desliza para o horror e dele já é possível ver o rosto horrendo.

Resta saber se o medo que provoca nos fará recordar a face da esperança que, não faz muito, vimos.

Quem não vê que o povo brasileiro é a única força capaz de esticar e elevar a coluna dorsal deste país e quem não consegue ver o tamanho do Brasil.

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